sexta-feira, julho 27, 2007

O Ouro do Reno (II)


Perguntam-me com frequência qual foi a cidade que mais gostei de visitar na Alemanha. Respondo sem hesitar: o Reno. Se há ainda na Europa um lugar que seja o espelho da civitas romana – o espaço onde os cidadãos se encontravam e praticavam a sua condição de habitantes do Império – esse lugar é o Reno, onde conflui todo o complexo tecido histórico, cultural e social que caracteriza a Alemanha.

É o Reno que contorna a Floresta Negra e assinala a fronteira com a Suíça e a França, na solarenga e primaveril região de Baden-Württemberg, onde o céu azul, as casas brancas e o azeite são o orgulho das gentes. É o Reno que atravessa os palcos das grandes lutas religiosas – a partir das quais nasceu verdadeiramente a Alemanha como nação – banhando Speyer e Worms, onde o Protestantismo deu os primeiros passos institucionais. É ainda o Reno que irrompe orgulhosamente no Palatinado, onde os romanos encontraram solos ricos, margens firmes e um rio navegável pelo qual fluiria o seu comércio – assim nascendo Mogúncia (Mainz) e Koblenz. E por fim, é o Reno que dá vida aos grandes centros políticos, culturais, intelectuais e financeiros do Oeste alemão, iluminando as de outro modo cinzentas cidades de Bona, Colónia e Düsseldorf.
Nos entretantos, este é o rio de todos os mitos, onde cada monte escarpado conta uma história, onde cada curva acentuada esconde uma tragédia, onde cada pequena vila – orgulhosamente beijando o rio – alberga um herói que Wagner haveria de celebrar. Os castelos que se erguem nas suas margens transportam-nos para antigos romances de cavalaria, com nobres príncipes, belas duquesas e perigosos dragões. Sabemos que Lohengrin nos aguarda, que Rolando chorou aqui, e receamos ainda o poder sedutor do Lorelei. E somos encantados pelas suas assombrosas encostas, o verde das suas margens, o ocre dos telhados que distinguem as incontáveis aldeias por ele banhadas, as centenas de pontes que homens esforçados erigiram ao longo dos séculos – tentando domar um rio que, na verdade, sempre foi insubmisso e rebelde. Como é ainda hoje.

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4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Se o Reno não tivesse outro embaixador este texto é o exemplo de como a escrita nos pode transportar para lá. Obrigada pelo postal tão ilustrado

27/7/07 17:55  
Blogger André, o campos said...

Xiça... O Masterblogger eleva aqui a fasquia de qualidade dos posts do bempelocontrário de maneira tal que até diminui e envergonha na sua pequenez este seu consociado bloguítico subalterno. A partir de agora é que o bempelocontrário se tornará a lufada de ar fresco que faltava no panorama dos blogues culturais...

27/7/07 23:51  
Blogger Leonor said...

Muito bonito.

28/7/07 10:24  
Blogger Freire de Andrade said...

Gostei do texto e fez-me lembrar a minha (única e breve) viagem pelo Reno e a visita a Mogúncia e Coblença no já distante ano de 1962, nos fins de semana intercalados num curso de verão de Química Industrial na BASF. Só dois pequenos reparos: O Reno não é uma cidade, mas sim um rio (claro que o autor sabia, e resolveu usar essa liberdade poética) e Koblenz em português é Coblença. Também obrigado pela recordação.

28/7/07 17:27  

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