quinta-feira, outubro 26, 2006

O dilúvio

Eu sei que tem chovido bastante. Mas nada justifica o cenário dantesco que as imagens televisivas revelam por estes dias. Ruas alagadas. Inundações nas praças, nas avenidas, nas estradas. O comércio fechado. O trânsito proibido. Até um autocarro foi levado por um riacho em Soure.

As explicações variam. Ninguém fechou as janelas. Foi uma tempestade. Foi um tufão. São os gases de estufa. É o fim do mundo.

Gostava que me dissessem como sobrevivem os indianos durante as monções. Como é que o Bangladesh se mantém à tona de água? Pronto, mais perto. Como é que Londres não submerge no Inverno? Ou Amesterdão, Berlim, Copenhaga? Porque lá chove que se farta. Bem sei que não têm mini-tornados, como nós, mas também nunca ouvi uma notícia de afogamentos em Picadilly Circus.

Seria interessante que alguém investigasse o estado das nossas sarjetas. E que se desse uma olhadela aos sistemas de escoamento das nossas estradas, praças e ruas. Mas isso depois obrigava a fazer perguntas ao Governo e o Governo atribuiria responsabilidades aos autarcas. Os autarcas culpariam as Juntas de Freguesia. E as Juntas.. bem, as Juntas queixam-se da comunicação social. O melhor mesmo é dizer que a culpa é do tempo, que tem as costas largas.

3 Comments:

Anonymous volchok said...

O bastonário da ordem dos engenheiros disse na SIC Notícias duas coisas bastante interessantes a este propósito:

- Nos últimos anos, em Portugal, o índice de construção foi o dobro da média europeia, com a consequente impermeabilização dos solos, que retém a água à superfície.

- É necessário construir mais barragens para controlar melhor os caudais dos rios e, ao mesmo tempo, fazer crescer as reservas de água do país -- não faz sentido queixarmo-nos da seca e no Inverno faltarem estruturas para armazenar a água da chuva que ajudaria a resolver o problema no Verão.

Claro que limpar sarjetas e desobstruir os leitos dos rios é indispensável. E obviamente a protecção civil, salvo raras excepções, não faz nada disso.

Quanto às modificações no clima, é fundamental perceber que não existe consenso, ao contrário do que o sr. Al Gore nos quer fazer crer. Para se ter uma ideia da divisão que se instalou na comunidade científica, aconselho uma saltada ao blog MITOS CLIMÁTICOS.

Finalmente, uma nota sobre a máquina de propaganda do governo:

Em Soure, um autocarro com 52 crianças ficou isolado. Em Pombal, o centro da cidade pura e simplesmente fechou (escolas fechadas, centro de saúde fechado até amanhã, hospital inacessível durante 2 horas, quartel dos bombeiros inundado, um shopping em risco de ruir, uma idosa morta, 40 famílias deslocadas preventivamente). Em Leiria, inúmeras pessoas foram retiradas de barco. Em Coimbra, o cenário era idêntico.

Para onde foi o ministro enquanto tudo isto se passava? Para Tomar, onde a cidade se preparava para uma mini-cheia com militares, sacos de areia, diques e outros mecanismos de prevenção. E assim se faz política.

26/10/06 14:07  
Anonymous Castanheira said...

A construção de mais barragens é um de muitos mitos relacionados com as questões de ordenamento e é sempre a solução apontada, quando não resolve em nada os problemas existentes e muitas vezes até os agrava. Seria muito mais profícuo saber porque razão a maioria dos nossos aglomerados populacionais são construídos em leito de cheia, de forma recorrente. Seria também interessante comparar o número de barragens que países como a Inglaterra ou outros do Norte da Europa possuem por habitante; talvez chegássemos a conclusões surpreendentes. Ou será que os altos indíces de pluviosidade que aí ocorrem são apenas histórias da carochinha? Ou talvez a água evapore rapidamente com as elevadas temperaturas que lá se fazem sentir?
Qualquer dia vão dizer que a culpa da seca e dos fogos é do calor e que é preciso criar mais albufeiras para abastecer os aviões. Sugiro que se veja o que a má gestão dos aquíferos, curiosamente retidos em barragens, contaminados pelos seus altos níveis de salinidade e eutrofização ou mesmo feitos desaparecer, possa ter a ver com isso. As secas e as cheias estão relacionadas e podem acreditar que não é construindo mais elefantes cor-de-rosa que resolverão o problema. Quanto ao armazenamento de água, podíamos perguntar-nos porque razão é que cerca de metade se perde durante o percurso na rede de abastecimento, ou porque motivo se aposta numa forma de turismo em zonas de seca - o golfe - de forma massificada, quando se sabe que: 1)não será sustentável económica e ambientalmente a médio prazo (é mais uma maneira de aproveitar incentivos estatais, explorar o filão a curto prazo e largar quando a coisa estiver a ficar feia); 2)exige elevadas quantidades de água para regar, com aspersores , a relva que os constitui (cerca de 80% evapora antes de atingir o solo, mas felizmente isto está a mudar).
Antes de gastarmos mais dinheiro em projectos megalómanos e inconsequentes devíamos pensar bem, consultar quem de facto percebe das coisas e planear a médio-longo prazo, evitando situações como aquelas que estão aí, à vista de quem para elas quiser olhar.

26/10/06 22:18  
Blogger Amélia said...

GOSTEI DE PASSAR POR AQUI A COINSELHO DE UMA AMIGA.É bom estar atento ao que nos rodeia e chamar a atenção para as desatenções...

27/10/06 12:20  

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