domingo, março 04, 2007

Duvidanças de uma mente curiosa, 17

A propósito da arte "prática" da banca portuguesa:

1) Imagine o leitor que a declaração fiscal referente a empréstimos à aquisição de habitação, que o seu banco lhe envia todos os anos, vem errada. Imagine o leitor que tenta que a dita instituição lhe corrija, e discrimine, os valores indicados. Imagine ainda que o banco se recusa a fazê-lo, dizendo que já cumpriu a sua obrigação legal com a primeira declaração, e que agora qualquer nova declaração cairá no preçário do banco, isto é, ao preço de 100 euros por declaração. Que diria o leitor ao seu banco?

2) Imagine o leitor que tem um qualquer seguro do Ramo Vida junto de uma seguradora que pertence a um grupo financeiro bancário. Imagine que deseja alterar o valor do seu seguro, ou o beneficiário do dito, ou simplesmente anulá-lo (ao seguro, não ao beneficiário), e que pretende uma declaração escrita comprovando essa alteração ou revogação. Imagine que por esse simples papel impresso em cinco segundos o banco lhe cobra 100 euros. Que diria o leitor ao seu banco? (Adendando: que texto será tão valioso, a 100 euros a página? Se teses de doutoramento fossem feitas nesse preçário, os doutorados seriam todos riquíssimos.)

3) Imagine o leitor que pretende fazer investimentos avultados com um grau elevado de risco, e que recorre ao seu gestor de conta bancário para o aconselhar. Imagine que o seu gestor de conta ocupa um mero balcão de atendimento ao público, e que pretende discutir, com uma fila de pessoas atrás escutando a conversa, o seu património bancário e todos os seus investimentos futuros, e ainda por cima em pé. Que diria o leitor ao seu gestor de conta?

4) Imagine o leitor que pretende cópias com valor legal de todas as condições de todos os contratos que forma com o seu banco, e que o mesmo lho recusa, por não ser "prática habitual". Que diria o leitor ao seu banco?

5) Imagine o leitor que pretende aderir ao serviço netbanking do seu banco. Imagine que lhe fornecem os códigos de acesso e as passwords para o fazer. Imagine ainda que, não conseguindo fazê-lo, contacta o seu banco e percebe que faltam dados que só podem ser apresentados in loco numa agência bancária. Imagine o leitor que se desloca a uma qualquer agência, para apresentar tais dados, e percebe que essa informação ausente não é senão os nomes completos do seu pai e da sua mãe. Imagine que o leitor pergunta a pertinência de tais dados para a sua relação contratual com o seu banco, e que lhe respondem que é "prática habitual". Que diria o leitor ao seu banco?

6) Imagine o leitor que regista provisoriamente a aquisição da sua futura casa, e que pouco tempo depois celebra a escritura de compra da mesma. Imagine o leitor que delega no seu banco a função de converter o registo provisório em registo definitivo. Imagine o leitor que tal função, quando cumprida, consiste em demonstrar por documento oficial (a escritura), junto dos serviços de registo predial, a referida compra. Imagine que por tal serviço o seu banco lhe cobra 350 euros. Que diria o leitor ao seu banco?

7) Acredita o leitor que todas estas histórias são verdadeiras?

3 Comments:

Blogger JÚLIO SILVA CUNHA said...

Um pouco mais de concorrência e abertura de mercado, não fariam mal nenhum!
J.

4/3/07 21:10  
Anonymous Anónimo said...

Obrigaga pelas suas duvidanças. Aprecio-as e faço delas motivo de reflexão.
Hoje, a duvidança é particularmente acutilante e verdadeira e porque eu já estive de pé com uma fila atrás de mim a assistir a informações que só a mim dizem respeito etc. etc...
Quando saio dessas situações vou, sempre que posso, fazer uma caminhada de relaxamento e oxigenação cerebral.
Recordo, inevitavelmente o Kafka e a sua genialidade para "descrever" o labirinto...e soletro todo o léxico vernáculo que qualquer português se orgulha de ter.

5/3/07 11:23  
Blogger José Gomes André said...

Ainda há pouco tempo descobri que o meu banco (a CGD), me cobra 40 euros por ano por "despesas de manutenção" por um cartão multibanco. Isto porque o dito cartão não está associado a um ordenado fixo e não tem um saldo médio de 1000 euros (coisa pouca). Como diria o grande Filipe Soares Franco: "isto é um roubo!"

6/3/07 18:03  

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