terça-feira, agosto 28, 2007

Momento cultural

Confesso que tinha poucas expectativas em relação à entrevista de Gualter Baptista na SIC Notícias – um tal de porta-voz dos Verde Eufémia, ex-membro do GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental), ex-membro de uma lista autárquica do Bloco de Esquerda, e mais recente estrela mediática no planeta revolucionário. É certo que o Mário Crespo consegue sempre criar uma atmosfera extraordinária, confrontando o convidado com questões incómodas e arrancando declarações inesperadas, mas pelo que tinha visto antes de Gualter Baptista, esperava apenas tiradas inócuas sobre os males da civilização ocidental e as virtudes da vida selvagem (desde que seja devidamente acautelada a abertura de estabelecimentos nocturnos no Bairro Alto e a comercialização de t-shirts com o Che Guevara). Afinal, aprendi uma série de coisas notáveis – daquelas que verdadeiramente contam para o nosso desenvolvimento intelectual e social:

Aprendi que a responsabilidade é um bem passível de ser delegado, mas jamais de ser assumido. É um perigoso atentado à saúde.

Aprendi que para se proteger um direito constitucional é legítimo violar um direito constitucional. Está bem pensado.

Aprendi que é possível participar numa acção sem a aprovar. Não sei o que Kant diria sobre isto, mas no tempo dele não havia milho transgénico, por isso não interessa.

Aprendi que me mentiram na escola, quando disseram que Sócrates tinha derrotado os sofistas. Não é verdade: eles continuam por aí e com grande implementação.

Aprendi ainda que as tendências da colecção Outuno/Inverno apontam para a utilização de máscaras que cubram o rosto. Não esperava ouvir um defensor da revolução socialista falar de “questões estéticas”, mas gostei de ver que tem olho para a moda.

Para meia hora, não está mau.

3 Comments:

Blogger JPG said...

O vídeo dessa entrevista acaba de ser publicado, pelos próprios.

30/8/07 15:43  
Anonymous NC said...

Era o que eu dizia, em comentário, alguns posts atrás: uma acção impensada, como esta, pode deitar por terra um longo trabalho de fundamentação e de polemização de uma questão importante como a presente.
É difícil passar a mensagem de que, no que respeita ao ambientalismo (para aqueles que gostam de 'ismos', que não é o meu caso), longe vai o tempo em que a estratégia de 'queimar soutiens' ou vestir fatos anti-contaminação trazia alguns resultados. Aliás, pergunto-me muitas vezes se alguma vez alguma coisa positiva e construtiva resultou desse tipo de atitudes. Em boa verdade, só se consegue algum chinfrim mediático, como ilustra esta infeliz acção, o que não chega e muito menos contribui para a resolução ou discussão séria dos problemas.
Em questões difíceis como esta, em que as coisas não são a preto e branco, mas bem matizadas, a defesa de uma posição não se coaduna com acções despropositadas e, tenho que dizê-lo, um tanto ridículas.
Só tenho pena que os erros de uns tragam consequências para a imagem pública de outros, mesmo quando as suas posições divergem consideravelmente.
Um abraço.

30/8/07 18:32  
Blogger José Gomes André said...

Só agora reparei no teu comentário, nuno. Subscrevo por inteiro. Aliás, se este episódio pudesse ter um título, acho que seria mesmo "como descredibilizar uma causa de forma instantânea". O debate sobre os transgénicos é importante (mas não urgente e e relevantíssimo, como se apregoa...), mas a única coisa que se conseguiu foi denegrir a imagem dos "verdadeiros" ambientalistas.

Tenho pensado no pobre Viriato, sabes? O homem anda há 30 anos a defender a causa do ambiente, sabe-se lá a que custos (como outros, como outros...), e aparecem estes energúmenos a fazer umas macacadas e este pateta do Gualter, e em meia dúzia de dias o apoio dos media e da opinião pública a essa causa desceu para níveis próximos do zero... É lamentável.

Abraço!

1/9/07 03:54  

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