sábado, novembro 10, 2007

Preguiça crítica

A discussão política em Portugal entrou numa prolongada hibernação. A esmagadora maioria dos jornalistas, opinion-makers e comentadores em geral esquiva-se a reflexões demoradas, preferindo avançar com análises sucintas e soundbytes (adoptando a mesma estratégia que criticam nos políticos). Vejamos: o PSD “está mergulhado numa crise” e tem “uma direcção bicéfala” (esta é particularmente irritante). A subida nas sondagens e as primeiras semanas surpreendentemente positivas e contidas de Menezes não são tidas em conta. O CDS está “ainda a recuperar das suas querelas internas”. Longa convalescença, esta! O país “atravessa um momento difícil” (mas alguma vez esteve num “momento fácil”?) e este é “o Orçamento possível” (não há alternativas, é isso? Então para quê o debate?).

Por outro lado, escasseiam as análises sobre as incongruências deste Governo, dito socialista. Poucas ou nenhumas perguntas sobre a falta de preocupações sociais do dito; pouca ou nenhuma insistência na falta de vergonha de um Governo que não honra os seus compromissos (o referendo, a não-subida de impostos, a subida de impostos “temporária”, os 150 mil empregos); pouca ou nenhuma insistência nos constantes erros, desvarios e ziguezagues estratégicos do Executivo.

As consequências estão à vista, mas é mais difícil traçar as causas: esta preguiça é fruto de um alinhamento político ou de uma letargia explicável talvez pelo clima ameno?

2 Comments:

Blogger Aveugle.Papillon said...

Interessante a sua reflexão, porque ainda hoje pensei sobre a correlação entre o desinteresse que se tem pela filosofia e o desinteresse pela política, no nosso país. Talvez a "letargia" seja antes explicável pela fraca capacidade crítica e democrática que temos, fruto de uma inexistente formação filosófica nos nossos currículos. (Sim, porque a filosofia dada no 10º e 11º anos, por incompetência dos professores e dos manuais, sendo que são feitos pela mesma classe, classe essa que é por sua vez formada pelas universidades e, aqui, chegamos ao cerne apodrecido da questão)...

10/11/07 20:06  
Blogger José Gomes André said...

Obrigado pelo seu comentário. Sobre a importância da filosofia, eu sou pouco isento, porque ela é a patroa que me põe comida no prato, por isso é melhor não acrescentar muito. Limito-me a dizer que subscrevo por inteiro o que defendeu.

Por outro lado, trata-se também de um problema da relação entre a comunicação social e o poder, que funciona na base de uma atracção mútua fortíssima: é um caso clássico em Portugal - os jornalistas bajulam quem governa (porque isso os "aproxima" do poder) e zombam da oposição (pelo motivo oposto).

Cumprimentos!

11/11/07 03:16  

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