terça-feira, junho 12, 2007

A estratégia da aranha

A decisão de proceder a novo estudo sobre a localização do Aeroporto Internacional é uma medida correcta do governo e que se aplaude. Todavia – ao contrário de Marques Mendes (que voltou a fazer asneira, pela enésima vez) – não nos devemos cingir a este elogio. Há meses que o Governo tem enxovalhado todos aqueles que criticam a “opção Ota”, acusando jornalistas, políticos e cidadãos comuns de terem vistas curtas, de serem manipulados por obscuros e poderosos lobbies, de adoptarem uma atitude anti-patriótica, de serem enfim os Velhos do Restelo do costume. A argumentação desceu a níveis inaceitáveis, com o auge a surgir nas patéticas declarações de Mário Lino e nas tiradas autoritárias de António Costa, para quem “só os técnicos se podem debruçar sobre a questão”.

O recuo do governo vem confirmar que esta arrogância não passava de pura fanfarronice, uma manobra rasteira que intentava tão-só dissuadir os críticos pela força da argumentação populista e silenciar um debate aparentemente desconfortável.

Mas justamente porque o comportamento do governo ao longo deste processo tem sido mais que duvidoso, exige-se prudência na abordagem a este volte-face. Discute-se na imprensa se se tratou ou não de recuo, havendo quem considere ter Sócrates imitado a marcha do caranguejo. No meu entender, este episódio assemelha-se bem mais à estratégia da aranha.

Num momento em que o governo sofre severas críticas, devido a sucessivas trapalhadas e algumas reformas que suscitam um evidente descontentamento social, com as eleições em Lisboa à porta (e Costa com inesperadas dificuldades para obter a maioria absoluta), e numa altura delicada para Sócrates – com a aproximação da Presidência da União Europeia – adiar o “problema Ota” é uma jogada de mestre. O Governo vai ganhar tempo, cultivando a imagem de seriedade e rigor que os socialistas têm propagandeado nos últimos anos. Além do mais, prepara-se o terreno para uma bem mais pacífica aceitação da “solução Ota” (alguém tem dúvidas?), com a apresentação de “estudos” complementares previsivelmente desfavoráveis a outras localizações.

Realpolitik ou o triunfo da desfaçatez? Provavelmente as duas coisas.

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5 Comments:

Anonymous lavínia said...

Parece-me sempre bastante estranho que cada passo do Governo seja interpretado no interior de uma rede de maquinações estratégicas... Será pior a politiquice em si ou esta mania insistente em fazer de cada intento governativo, cada gesto da oposição, cada declaração inóqua, um mero indício dessa teia tão sinistra? Teoria da conspiração ou puro fait-divers?

12/6/07 10:34  
Blogger José Gomes André said...

Fait-divers, quando estamos a falar de um projecto que custa 20% do PIB nacional, não é de certeza. Eu acho que a pergunta certa é: teoria da conspiração ou ingenuidade?

Pelo que escreveste, parece-me que achas que a política do governo é movida por boas intenções, e motivada pelo bom-humor diário dos ministros... Não há estratégia na política? É tudo obra do acaso? Então responde-me por favor: como explicas que o Governo ande há 2 anos a zombar de todos os críticos da Ota e, subitamente, depois de o ministro Mário Lino dar a gaffe da década, António Costa estar à rasquinha em Lisboa muito por culpa do seu apego à Ota, e Sócrates ser pela primeira vez vaiado em público, se tome esta decisão? Porquê agora? Este estudo da CIP, que fala na "hipótese Alcochete", tem um mês!!

O Mário Lino, quando fez aquelas declarações ridículos, já sabia da existência deste projecto... Vais dizer-me que aquelas intervenções faziam algum sentido, tendo em conta que se iria voltar a falar da hipótese "Alcochete"? Há 3 semanas, o Governo PS TINHA A CERTEZA de que a Ota ia para a frente. Até começar a ver sondagens, o recuo da opinião pública, o raspanete de Cavaco, e as implicações políticas do seu autismo...

Mas se ainda achas que estou tolhido por teorias da conspiração, recomendo visitas ao "Mar Salgado", ao "Corta-Fitas", ao "Blasfémias", e ao "Portugal dos Pequeninos", onde encontrarás outros lunáticos como eu...

Um abraço!

12/6/07 16:28  
Anonymous lavínia said...

Já sabia que ficaria do lado da ingenuidade... Repara, não estava a falar apenas da OTA, nem me refiro a esta decisão em particular, mas apenas à tendência geral de fazer uma leitura estritamente política de cada decisão, de cada declaração, etc. E não me refiro apenas aos blogues, mas em geral aos órgãos de comunicação nacionais, e a bastantes "opinion makers". O que quero dizer é que em geral se perde DEMASIADO tempo, em particular na política portuguesa (a única que acompanho com regularidade), com questões secundaríssimas e leituras bastante redutoras. Resta muito pouco para a análise clara e tranquila dos factos em causa. Apenas isso,(e nada contra o "bem pelo contrário" em particular)!
Abraço

12/6/07 23:40  
Anonymous lavínia said...

Já agora e a respeito da questão da OTA que, pelo contrário, considero obviamente relevante, em si. Veja-se o "da literatura" sobre o estudo encomendado à CIP e hoje tornado público.

12/6/07 23:58  
Blogger Ângulo Saxofónico said...

Nem conspiração nem ingenuidade: simplesmente, e quase tão assustador, estes senhores (e os anteriores e os seguintes) andam "à nora" e ao sabor do vento. Mas concordo com a Lavínia: mais polity e policy e menos politics seria desejável.

14/6/07 03:12  

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