segunda-feira, outubro 22, 2007

Sob escuta

Parece uma maldição: quem ocupa cargos públicos em Portugal padece de uma grave incontinência verbal. Autarcas, ministros, deputados, procuradores-gerais. Ninguém escapa ao insaciável desejo de protagonismo. O resultado? Na procura incessante de grandes tiradas e reluzentes parangonas lá aparecem frases menos felizes, pouco ponderadas e inevitavelmente polémicas.

Só em Portugal um procurador-geral poderia dar uma entrevista a um grande semanário e afirmar que o sistema de escutas está descontrolado e que o próprio acredita que poderá estar a ser alvo de escutas! E quando sublinha que a sua desconfiança se deve a uns “barulhos esquisitos” que ouve no telemóvel, passamos do registo do escândalo político para o campo do mais extraordinário non-sense.

Esta declaração é de uma gravidade ímpar. Se o procurador-geral pode ser alvo de escutas sem autorização, se o sistema não tem regras, nem limites, é a sociedade no seu todo que está em xeque. Pois todos somos suspeitos e todos podemos ser acusados a qualquer momento e por qualquer motivo: uma frase fora do contexto, uma intervenção infeliz, uma troca de mensagens equivocada. Todos estamos sob o escrutínio de uma força que ninguém controla. Alguém falou em Big Brother?

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quinta-feira, outubro 11, 2007

A "visita policial" na Covilhã

1. Considero que se deve condenar a intervenção da PSP junto do sindicato de professores e reprovar este gesto de intimidação, mas não creio que se justifique o entusiasmo exacerbado que o assunto provocou. Em particular a dita “indignação” dos partidos políticos parece claramente encenada, procurando tirar dividendos de uma situação em que o Governo esteve mal, mas com poucas repercussões práticas. As declarações do PCP foram especialmente desadequadas, clamando “a pátria está em perigo” entre tiradas poéticas e protestos emocionados. Tratando-se de um partido que aplaude os regimes políticos da China, Coreia do Norte e Cuba (onde não existe sequer liberdade de expressão na vida privada, quanto mais na vida pública), o engodo e a hipocrisia tornam-se ainda mais evidentes.

2. O Governo faz uma triste figura nesta história, e não necessariamente por causa da importância da mesma – mas tão-só porque ela se vem juntar a uma série de episódios marcados pelos tiques autoritários e pelo excesso de zelo no exercício da autoridade. Além disso, começa a tornar-se patética a incapacidade de José Sócrates (e do Governo em geral) de lidar com as críticas públicas, apressando-se de imediato a desvalorizar qualquer manifestação de desacordo. Por outro lado, fica mal ao primeiro-ministro responder com sarcasmos adolescentes às perguntas dos jornalistas sempre que o tema não lhe convém.

3. No meio da polémica, houve espaço – como sempre há nestes eventos – para uma demonstração do mais básico tuguismo. Extraordinária a declaração de Maria Alzira Serrasqueiro, a Governadora Civil de Castelo Branco, que afirmou que os polícias “iam à câmara e pelo caminho passaram no sindicato”. Repito, isto é tuguismo no seu melhor: a desculpa mais rasteira, a declaração mais chico-esperta, a justificação mais empertigada, insolente e saloia, numa tentativa evidente de nos deitar areia para os olhos. Uma desfaçatez que devia envergonhar aquela militante socialista.

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quinta-feira, setembro 20, 2007

Nulidade...vezes dois

O debate entre Luís Filipe Menezes e Marques Mendes – tão discutido entre os dois, tão polémico, tão evitado – foi afinal uma desilusão. Terá merecido pouco mais que um longo bocejo.

Mendes é a incarnação política da boçalidade, um tipo com quem jogaríamos uma sueca sem hesitar, mas com o qual jamais discutiríamos literatura, cinema ou... política. É espantoso como consegue proferir absolutas vacuidades convencido de que acabou de descobrir a pólvora. E sou levado a concordar com Jorge Coelho: o episódio do ataque ad hominem a Armando Vara foi lastimável e totalmente despropositado.

Menezes é um populista a querer passar por grande pensador e proeminente estadista, com pose de primeiro-ministro e de “animal político”. Um momento do debate define perfeitamente o seu carácter. Quando Ana Lourenço o interrogou sobre se ele deixaria o cargo de Presidente da Câmara de Gaia se ganhasse as directas no partido, Menezes lançou a mais rasteira e hipócrita resposta possível: “Já tomei uma decisão internamente, mas só a revelarei no momento certo”. Típico: não se comprometendo com nenhuma resposta, nem aliena os militantes do PSD (que nunca votariam nele se não se dedicasse a 100% à liderança do partido), nem aliena os eleitores de Gaia (não vá ser necessário novo tacho daqui a três anos). Uma resposta que tem tudo aquilo que enoja na política: um tacticismo e uma cobardia insuportáveis.

Vão perder os dois e vai perder o país.

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sábado, agosto 25, 2007

Mariano, o iluminado

A entrevista de Mariano Gago a Mário Crespo na SIC Notícias foi um espectáculo de arrogância como raras vezes tenho visto. O ministro – que parece uma pessoa sincera e intelectualmente honesta – respondeu às críticas contra a reforma do Ensino Superior com uma altivez inaceitável. Recorrendo à retórica inócua da “Esquerda Moderna”, Gago descreveu os críticos como alguém que “vive no passado” e “receia o que é novo”. Prosseguiu em seguida com uma argumentação rasteira, afirmando que os pareceres do Conselho Nacional de Educação – altamente desfavoráveis às medidas – são feitos por “pessoas que não percebem nada do assunto” e “avessas à mudança”.

Mário Crespo bem procurou suavizar as intervenções do ministro, mas Mariano Gago estava imparável, terminando a entrevista com uma série de tiradas mais ou menos etéreas, entre o “é preciso olhar o futuro” e o “não podemos ficar agarrados ao passado” – o que aparentemente são duas coisas diferentes para o ministro.

Para falar verdade, não sei o que é mais insuportável: se o tom empertigado e a estratégia de ridicularização de críticos e adversários – como se ninguém entendesse a genialidade do ministro devido a uma congénita imbecilidade; se este discurso completamente vazio relativo à “inevitabilidade da mudança”. É um dos traços do governo de Sócrates, aliás: olhar para o futuro, sempre para o futuro, esquecer o passado, o que era já lá vai, vamos mas é para a frente, todos a trabalhar para o amanhã. Talvez não fosse pior que alguém parasse a marcha e olhasse para o mapa, só para o caso de andarmos em círculos.

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terça-feira, agosto 07, 2007

Os gladiadores

Os candidatos à liderança do PSD bem apregoam que pretendem “discutir ideias”, “projectos”, “políticas para o país”. Claro que tudo não passa de um processo de intenções (e se calhar nem isso). Assistimos diariamente a azedas trocas de palavras, insinuações rasteiras e ataques pessoais, sempre em torno de questões comezinhas como os “estatutos”, as “quotas”, o “diz que disse” e as dispensáveis apreciações de carácter. Cada vez mais, o PSD transmite ao país uma imagem de verdadeira putrefacção, qual partido em processo de implosão. E se o estilo trauliteiro de Menezes é abjecto, a absoluta inépcia política e conceptual de Marques Mendes é confrangedora. O embate entre ambos pode agradar ao público adepto do Wrestling, mas servirá apenas para afastar ainda mais os eleitores dos social-democratas.

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quinta-feira, julho 26, 2007

O caso Charrua (I)

A Ministra da Educação arquivou o processo. Caso encerrado? Nem por sombras.

1. Fernando Charrua foi afastado da DREN – alegadamente por motivos exteriores a este processo (e eu sou o Pai Natal) – e resta-lhe cumprir o seu serviço como professor de Inglês numa escola do Porto, sem um pedido de desculpas, sem uma indemnização, e onde – aposto – os tiranetes socialistas lhe vão fazer a vida negra.

2. Margarida Moreira, a fiel escudeira, continua no cargo – o que é totalmente inaceitável. Este esbirro medieval analisou, ponderou e decidiu dar prosseguimento a uma delação idiota, suspendendo de imediato Fernando Charrua. A ministra responde arquivando o processo, por considerar que “a aplicação de uma sanção disciplinar poderia configurar uma limitação do direito de opinião e de crítica política, naturalmente inaceitável numa sociedade democrática”. Isto trocado por miúdos quer dizer que a ministra acha que a directora da DREN fez bosta da grossa, que nunca devia ter dado seguimento à delação e que quem defendeu uma sanção ao Professor – como fez Margarida Moreira – estava a atentar contra a liberdade de expressão e contra as sociedades democráticas. Se isto não é motivo para demitir Margarida Moreira, o que será necessário? Que a senhora directora faça explodir as instalações da DREN?

3. A questão de fundo continua por ser respondida: como é óbvio, o acto de Margarida Moreira não tinha como objectivo obter a punição de Fernando Charrua enquanto Fernando Charrua. O que se pretendia era transmitir um sinal claro à Administração Pública de que a crítica à política do Governo é inadmissível, e que apenas o silêncio e a obediência são tolerados. O processo pode ter sido arquivado. Mas sem a demissão de Margarida Moreira e sem um pedido de desculpas da ministra, essa mensagem subliminar passou. O Governo diz que o assunto está encerrado e que “tudo está bem quando acaba bem”. A verdade é que Charrua perdeu o emprego de uma vida na DREN, Margarida Moreira foi reconduzida no cargo e a Administração Pública recebeu a lição pretendida pelo Governo. No fim de contas, o autoritarismo socrático ganhou mais uma batalha.

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quarta-feira, junho 20, 2007

Notas do debate

Sá Fernandes (14 valores). Começou mal, com os tiques moralistas habituais do Bloco, mas melhorou quando deixou de utilizar a expressão “eu denunciei”. Excelente no capítulo dos transportes, insistindo na necessidade de criar redes de eléctricos modernos no centro de Lisboa. Confirmou uma imagem de independência e de paixão pela cidade.

Ruben de Carvalho (16). Uma agradável surpresa. Doseou uma fina ironia com a apresentação de propostas sérias, valorizando o capital humano da Câmara – quando Telmo Correia enxovalhava os funcionários. Muito bem ao relevar a importância de a Câmara não ser tomada de assalto pelo poder central, numa crítica à deriva autoritária de Costa.

Helena Roseta (13). Uma ligeira desilusão. Bom início, trazendo para a mesa o tema da cidadania e do necessário envolvimento dos cidadãos na política municipal. Igualmente positivo o apelo ao entendimento entre os candidatos. Pena que tenha batido tantas vezes nessa tecla, e sobretudo que tenha sido tão vaga em relação aos projectos urbanistas para Lisboa. Uma pessoa da sua experiência na área deveria ter sido mais objectiva e arrojada.

António Costa (8). Um desastre. O estilo arrogante é insuportável: um semblante de estadista postiço, um sorrisinho sarcástico e pose de vencedor antecipado. As propostas são o triunfo da vacuidade: é preciso uma cidade “amigável” e um executivo “rigoroso”. Insistiu na ideia de que a cidade tem tudo a ganhar com um aeroporto longínquo (ao menos é original). Voltou a utilizar o argumento hipócrita de que pode resolver os problemas financeiros devido ao bom entendimento com o Governo, e voltou a pedir uma “maioria absoluta”. A julgar pelo que se viu, vai sim continuar a obter uma minoria cada vez mais absoluta.

Carmona Rodrigues (10). Decidiu não atacar Negrão, para ultrapassar a imagem de um político ressentido. Contudo, a abordagem aos problemas financeiros foi péssima, procurando justificar o injustificável, ao traçar um cenário em pleno divórcio com a realidade. Falou do passado, das propostas do passado, das ideias do passado. Ficou a dúvida sobre como pretende corrigir os (muitos) erros destes últimos anos.

Fernando Negrão (10). Sensaborão. Parece sério, honesto, racional, mas continua a ser um peixe fora de água. Esteve bem ao considerar a Portela fundamental para o desenvolvimento do turismo, mas as suas propostas sobre a mobilidade foram surrealistas (vários parques de estacionamento na Baixa para resolver o problema do trânsito???). Foi demasiado brando para com Costa e teve várias tiradas absolutamente inócuas.

Telmo Correia (14). Péssimo início, com críticas demagógicas sobre o número de assessores de Carmona, seguido de uma diatribe contra os funcionários da Câmara. Melhorou progressivamente, e foi o que melhor falou sobre os problemas da segurança, do turismo e (espantemo-nos!) do ambiente. O mais acutilante dos intervenientes, foi também o autor da frase da noite, ao afirmar que “António Costa saiu do Governo, mas o Governo não saiu dele”.

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quinta-feira, junho 14, 2007

O inquérito

Já passaram 23 dias – vinte e três – desde que o professor Fernando Charrua foi suspenso de funções pela fiel escudeira Margarida Moreira, a directora da DREN. Foi aberto um “inquérito” às putativas declarações de Charrua (insultos? piadas?) relativas à licenciatura de José Sócrates. Desde logo, o Governo e os dirigentes e deputados socialistas recomendaram paciência à opinião pública, de forma a que o “inquérito” decorresse com normalidade e se “apurasse a verdade dos factos”. Foi tornado público que Charrua fez as suas declarações a um amigo num gabinete e que um terceiro delator informou a directora da DREN.

Estando isto esclarecido, desculpem-me perguntar: que género de inquérito envolvendo quatro pessoas e uma frase demora três semanas? Que tipo de interrogatórios podem ser conduzidos? Que perguntas são essas que necessitam de horas e horas de formulação, e de dias e dias de ponderadas respostas? Que tipo de intrincados procedimentos pode este acontecimento suscitar? Que complexos meandros pode envolver uma situação que diz respeito a uma frase dita de A para B, ouvida por C e transmitida a D? Como é que é possível fazer um inquérito sobre este assunto em mais de quinze minutos?

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terça-feira, junho 12, 2007

A estratégia da aranha

A decisão de proceder a novo estudo sobre a localização do Aeroporto Internacional é uma medida correcta do governo e que se aplaude. Todavia – ao contrário de Marques Mendes (que voltou a fazer asneira, pela enésima vez) – não nos devemos cingir a este elogio. Há meses que o Governo tem enxovalhado todos aqueles que criticam a “opção Ota”, acusando jornalistas, políticos e cidadãos comuns de terem vistas curtas, de serem manipulados por obscuros e poderosos lobbies, de adoptarem uma atitude anti-patriótica, de serem enfim os Velhos do Restelo do costume. A argumentação desceu a níveis inaceitáveis, com o auge a surgir nas patéticas declarações de Mário Lino e nas tiradas autoritárias de António Costa, para quem “só os técnicos se podem debruçar sobre a questão”.

O recuo do governo vem confirmar que esta arrogância não passava de pura fanfarronice, uma manobra rasteira que intentava tão-só dissuadir os críticos pela força da argumentação populista e silenciar um debate aparentemente desconfortável.

Mas justamente porque o comportamento do governo ao longo deste processo tem sido mais que duvidoso, exige-se prudência na abordagem a este volte-face. Discute-se na imprensa se se tratou ou não de recuo, havendo quem considere ter Sócrates imitado a marcha do caranguejo. No meu entender, este episódio assemelha-se bem mais à estratégia da aranha.

Num momento em que o governo sofre severas críticas, devido a sucessivas trapalhadas e algumas reformas que suscitam um evidente descontentamento social, com as eleições em Lisboa à porta (e Costa com inesperadas dificuldades para obter a maioria absoluta), e numa altura delicada para Sócrates – com a aproximação da Presidência da União Europeia – adiar o “problema Ota” é uma jogada de mestre. O Governo vai ganhar tempo, cultivando a imagem de seriedade e rigor que os socialistas têm propagandeado nos últimos anos. Além do mais, prepara-se o terreno para uma bem mais pacífica aceitação da “solução Ota” (alguém tem dúvidas?), com a apresentação de “estudos” complementares previsivelmente desfavoráveis a outras localizações.

Realpolitik ou o triunfo da desfaçatez? Provavelmente as duas coisas.

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sábado, junho 09, 2007

Telminho das feiras

Ontem à tarde, encontrei na Feira do Livro Telmo Correia e os seus fiéis apoiantes. Não havia bandeiras do PP nem folhetos, mas estavam lá todos os tiques de campanha: a arruada; a comitiva seguindo obedientemente os passos do líder; os apertos de mão trocados com quem passava, indiferente; os beijinhos à senhora das farturas; o livro apressadamente folheado em bancas com muito público, a piscar o olho à cultura (mas sem um único livro comprado, naturalmente); o sorriso forçado; o acenar às criancinhas.

Estarão os agentes partidários absolutamente convencidos de que estes comportamentos patéticos trazem votos aos candidatos? Chamem-me utópico, mas estou convencido de que nem a política, nem os políticos, nem os cidadãos precisam deste circo.

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sexta-feira, junho 08, 2007

A culpa é tua

Os últimos dias foram pródigos na arte de lavar as mãos. João Soares, Santana Lopes e Carmona Rodrigues envolveram-se numa troca de acusações a propósito da crise financeira que assola a Câmara de Lisboa – num espectáculo pouco edificante – recorrendo a um tradicional instrumento da política portuguesa: a desresponsabilização.

João Soares encarna Lula da Silva: não viu nada, não sabe de nada, é um anjo que serviu a cidade e se houve falcatruas na sua Presidência, ele não foi informado. Mas de uma coisa tem a certeza: a culpa é de Santana e de Carmona. E se calhar, de Krus Abecassis.

Carmona Rodrigues assume o papel de Scarface: dispara em todas as direcções, acusando sem provas e abusando da denúncia sugerida; estranhamente amnésico em relação à liderança de Santana (quando era número dois do executivo), tornou-se o mestre do cliché – com ele “o que conta é Lisboa”, “as pessoas de Lisboa” e “a cidade”. A culpa, claro, é dos partidos. Os tais que permitiram que Carmona fosse Ministro das Obras Públicas e Presidente de Câmara. Malandros.

Santana Lopes, naturalmente, continua a desempenhar como ninguém o papel de Kalimero: ele é o “menino guerreiro” que queria “salvar Lisboa” das garras do lobo mau (Soares), mas “algumas pessoas” e “algumas situações” não deixaram; é tão bondoso, tão bondoso, que soube atempadamente de esquemas ilícitos perpetrados por João Soares e mesmo assim não disse a ninguém, “porque isso compete às autoridades”. A culpa é de Carmona, um ingrato; Marques Mendes, outro ingrato; e de forças obscuras controladas por Darth Vader.

A política portuguesa continua pois a ser um exemplo de virtude. “As pessoas estão de boa-fé”, garantia hoje Santana Lopes na SIC Notícias. Na verdade, a culpa é do mundo, que é mau como as cobras.

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quinta-feira, maio 31, 2007

Todos ganharam? Todos perderam...

Das muitas coisas que se escreveram sobre a greve geral, encontrei um pequeno texto, no 31 da Armada, que sintetiza em setenta e nove palavras exactamente o que penso sobre o assunto. Assim sendo, e com a devida vénia, cito o Rodrigo Moita de Deus:

“Passei de mota por intermináveis filas de carros parados. Gente que vai perder uma manhã inteira dentro de um automóvel. As greves têm cada vez menos adesões porque a economia é cada vez mais privada. É por isso que o sucesso e impacto de uma greve geral já não se mede pelo número de pessoas que não foram trabalhar. Mede-se pelo desconforto e incómodo que causam nos outros. Mede-se pelo número de pessoas que foram impedidas de ir trabalhar”.

Nem mais. Aliás, parece-me que ninguém recordará o dia 30 de Maio com um sorriso. Os que fizeram greve perderam um dia de salário em vão, porque é óbvio que o Governo não vai recuar na sua política económica e social. Os que não fizeram greve sentiram que traíram os companheiros que não trabalharam e ainda por cima tiveram que levar com o Governo armado aos cucos, a dizer que a adesão foi mínima e que isso é um sinal de que as pessoas estão satisfeitíssimas com as suas medidas. Os sindicatos sofreram um rude golpe face ao evidente insucesso do evento. E o Governo perdeu pontos junto do seu eleitorado tradicional, depois de mais uma performance autoritária e com insuportáveis tiques de sobranceria (quem se lembrou de dizer que este foi um dia de “plena tranquilidade”, em novo exemplo de um absoluto divórcio com a realidade?), desvalorizando uma greve que – apesar de tudo – perturbou e/ou envolveu milhares de portugueses.

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quinta-feira, maio 24, 2007

Coisas que fazem rir, 12

O Governo de Santana Lopes era pródigo em trapalhadas, mas o executivo liderado por Sócrates – felizmente mais eficaz na arte da governação – tem-lhe seguido as pisadas. Os campeões do disparate são, até ao momento, Manuel Pinho – capaz das maiores confusões – e Mário Lino, o rei das tiradas de antologia (basta recordar o inesquecível “eu sou engenheiro devidamente inscrito na Ordem”).

Num discurso sobre a localização da Ota, Lino voltou a brindar-nos com várias pérolas, afirmando que “a Margem Sul é um deserto”, onde “não há cidades, não há gente, não há hospitais, nem hotéis nem comércio”, pelo que “seria necessário deslocar milhões (!!!) de pessoas para essa zona” para justificar a construção do novo aeroporto. A que se seguiu uma frase lapidar: fazer um aeroporto “no Poceirão ou nas Faias” seria o mesmo “que construir Brasília no Alto Alentejo”. E para terminar, Mário Lino comparou esta opção, a Sul do Tejo, com um “doente aparentemente de boa saúde”, mas “com um cancro nos pulmões”.

Isto é só comediantes.

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quarta-feira, maio 23, 2007

Um monarca em São Bento?

Consumada a saída das figuras com maior peso político do Governo (Freitas do Amaral, António Costa); assegurada a exportação de críticos internos (João Cravinho, Ferro Rodrigues, Carrilho); salvaguardada a reforma compulsiva de incómodos “históricos” (Medeiros Ferreira, Helena Roseta); garantida a presença de uma figura dócil em Belém (Cavaco Silva); silenciada a imprensa por destemidos pistoleiros (Pedro Silva Pereira, Santos Silva); e controlada a Administração Pública por fiéis capangas como a prepotente Margarida Moreira (a famigerada directora da DREN, directamente responsável por este lindo episódio) – Sócrates pode finalmente implementar uma duradoura monarquia constitucional.

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sexta-feira, maio 18, 2007

No pasa nada

O desemprego continua a aumentar a um ritmo impressionante, cifrando-se agora nos 8,4%. Em Portugal existem cerca de 500 mil pessoas que não têm trabalho. As políticas reformistas de Sócrates falham em toda a linha e a “estratégia de contenção financeira” – verdadeiro desígnio nacional – diminuiu o poder de compra dos cidadãos e restringiu benefícios sociais e fiscais. O país não sai da cepa torta. Somos os que menos crescemos na UE, somos cada vez mais últimos na educação, na saúde, na qualidade de vida, e cada vez mais primeiros no aumento de impostos, na inflação, no preço dos combustíveis. Somos ridículos, somos patéticos.

Tema de sobra para os telejornais? Nada disso! Tudo porque a esposa de um sujeito russo que talvez tenha visto a “pequena Madeleine” vai prestar depoimento à polícia: 19 minutos na SIC Notícias. Segue-se mais um exclusivo: descubra como o “caso Madeleine” vai prejudicar o turismo no Algarve. Não saia do seu lugar: mais à frente, conheça a história do homicida de uma adolescente no Barreiro, condenado a 21 anos de prisão. E, claro, há ainda a extraordinária notícia da substituição do cônsul honorário em Cabo Frio.

Depois de tudo isto, e se ainda alguém tiver resistido, ficará por fim a saber que o desemprego em Portugal é o mais elevado desde 1986. “O mais elevado desemprego desde 1986”? Como diriam os ingleses, “who cares?”.

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Fernando Negrão: primeiras impressões

Notas da entrevista de Alberta Marques Fernandes a Fernando Negrão, na RTP2:

POSITIVO
»A forma cuidada como apresenta os argumentos, falando pausadamente e procurando justificar as suas observações e propostas. Os debates prometem ser ricos e moderados. Ainda bem, porque de tiradas demagógicas e políticos popularuchos estamos fartos.

»Face à idiota questão (que infelizmente se vai repetir) “como se sente por ser a terceira opção de Marques Mendes?”, foi inteligente ao lembrar que também António Costa não foi a primeira escolha do PS – e que portanto esse facto é neste momento irrelevante.

»Ao referir-se ao estado calamitoso das finanças da Câmara, esteve bem ao criticar os executivos liderados pelo PSD, mostrando que não vai recorrer ao habitual “a culpa é dos outros”.

ASSIM-ASSIM
»Sublinhar que é essencial resolver os problemas financeiros da Câmara será a bandeira de todos os candidatos, pelo que insistir nesse tema não lhe vai certamente trazer votos.

NEGATIVO
»Pareceu pouco à vontade com a sua condição de um “setubalense” a concorrer em Lisboa – na verdade um detalhe relevante que precisa de justificar com brevidade.
»Revelou desnorte quando confrontado com o facto de ainda não ter composto uma equipa para concorrer à Câmara – isto quando faltam apenas seis semanas para as eleições.
»Foi estranho – para não dizer bizarro – que Negrão tenha referido que a sua segunda prioridade em Lisboa era resolver o problema dos idosos “que não têm ninguém”, referindo-se às 35 mil pessoas em “completa solidão”. Ora, por um lado, já existe uma diversidade de apoios estatais e camarários a estas situações (táxi social, vigilância do INEM, etc.), que além do mais, se resolvem sobretudo ao nível da própria comunidade (vizinhos, família, etc.) – sendo pois uma tarefa que compete em especial às Juntas de Freguesia. Por outro lado – e com todo o respeito pelos idosos “sozinhos” – habitam em Lisboa 700 mil pessoas e vivem diariamente na capital mais de um milhão e meio. Durante os 15 minutos da entrevista, Negrão limitou-se a falar dos “idosos” e das “contas públicas”. Ninguém se sentiu excluído?

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quinta-feira, maio 03, 2007

O caos de Lisboa

Nesta triste história, PS e PSD não ficam nada bem na fotografia. O PSD, por razões óbvias. A escolha de Santana Lopes – o Kalimero português – redundou num erro político crasso, que deixou Lisboa durante vários anos ao abandono. Utilizando a Câmara como trampolim para o poder, Santana limitou-se a deixar o tempo passar, sem tomar decisões determinantes para o futuro da cidade. Seguiu-se Carmona Rodrigues, uma escolha pessoal de Marques Mendes, que triunfou pela sua honestidade e pela sinceridade do seu projecto político. Infelizmente, deu-se um desastre e a Câmara de Lisboa é hoje um freak-show, onde pululam oportunistas, corruptos e políticos absolutamente inábeis.

Vão aparecer muitos elogios a Marques Mendes, pela “coerência” demonstrada ao retirar o apoio a Carmona e ao pedir eleições intercalares, mas não creio que o líder do PSD mereça crédito por isso. Na verdade, não se tratou de uma verdadeira opção, mas de uma manobra de sobrevivência política – pois sem esta posição todo o programa moralista de Mendes ruiria, juntamente com a sua credibilidade e a sua capacidade de liderança. Além disso, onde estava Marques Mendes quando, há uns meses atrás, Fontão de Carvalho e Gabriela Seara foram constituídos arguidos? Onde estava Mendes quando a autarquia se afundava em escândalos de favorecimentos? Onde tem estado Mendes, afinal, à medida que a Câmara se afunda num vórtice de asneiras?

O PS também deve ser censurado, pois orientou a sua conduta por princípios puramente politiqueiros. Perante a catástrofe que atingiu a Câmara, veiculou sempre uma mensagem ambígua, criticando o executivo, mas sem exigir a consequência lógica: a convocação de eleições antecipadas. Naturalmente, fê-lo por duas ordens de razões. Por um lado, porque pretendia que o PSD se afundasse ainda mais ao longo dos próximos meses, para que o triunfo em 2009 não lhe escapasse em definitivo. Por outro lado, porque sabe que as eleições intercalares se referem apenas à autarquia, e não à Assembleia Municipal, onde o PSD detém maioria.

Receando o combate político, e o verdadeiro desafio que seria liderar o executivo camarário contra uma Assembleia hostil, o PS preferiu apostar numa estratégia cínica, aguardando a consumação da tempestade para depois recolher os despojos de guerra. Tudo isto com a conivência do seu Secretário-Geral, que ainda não se pronunciou uma única vez sobre o assunto.

Enquanto isto, Lisboa permanece uma cidade mais suja, mais feia, com mais trânsito, mais violência, casas a preços absurdos, uma rede de transportes públicos ridícula, uma zona ribeirinha atulhada em contentores, jardins abandonados, um programa cultural diminuto, uma administração pública abúlica, ruas esburacadas e obras intermináveis. Mas orgulhosa do seu casino, dos seus túneis e da Revista.

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domingo, abril 22, 2007

Hara-kiri?

É espantoso que os militantes de um partido de Direita – que faz da defesa de valores, do respeito pelos bons costumes e da apologia dos comportamentos éticos elementos essenciais do seu credo político – tenham hoje eleito para seu líder um homem que praticou uma das maiores canalhices políticas de que há memória.

Portas pode ser melhor orador que Ribeiro e Castro, mais mediático, mais acutilante nas suas críticas e mais objectivo na definição das suas propostas. Pode ser mais famoso, mais popular entre os media e ter melhor instinto político. Mas o que fez ao longo destes dois anos – planeando manobras de bastidores para minar a legítima liderança de Ribeiro e Castro, e engendrando artimanhas políticas de forma a manipular uma oposição interna sem nunca dar a carafoi um truque demasiado baixo. Que o desonra, e que desonra aqueles que nele votaram nas Directas do CDS-PP.

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sábado, março 31, 2007

E ao sétimo dia, Deus descansou

O PCP e a malta do Bloco descobriram novo tema fracturante: os hipermercados abertos ao domingo. Vai daí orquestraram uma proposta de lei que visa acabar com este flagelo. Agostinho Lopes, deputado do PCP, invoca “o direito dos trabalhadores ao descanso”. Aparte a ironia que é ver um partido anti-clerical e ateísta advogar a sacralidade do domingo, gostaria de questionar: mas porquê apenas os hipermercados? Se o cerne da questão é o “direito ao descanso”, então, camaradas, não se fiquem pelo Jumbo e pelo Feira Nova!

Fechemos os restaurantes, bares e cafés. Encerrem-se os cinemas, os teatros e as salas de concertos. Acabem com os jogos de futebol ao domingo. O pessoal do telemarketing também quer descansar, como a polícia, os seguranças, os porteiros e os guardas-nocturnos. E, já agora, em nome do rigor, que ninguém se esqueça de dar folga aos padres. Por uma questão de coerência.

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sábado, março 24, 2007

O risco da obstinação

Uma das virtudes de Sócrates – assim nos querem fazer crer – é a sua coragem. Em contraste com o seu antecessor socialista (Guterres), Sócrates é um primeiro-ministro decidido, capaz de apresentar um plano com clareza e seguir o caminho projectado com determinação. O problema é que a determinação anda de mãos dadas com a obstinação.

O caso do aeroporto da Ota tem revelado como esta constatação pode ter consequências nefastas. Apesar de todos os estudos mostrarem as deficiências do projecto (a enorme distância da capital, os fracos acessos rodoviários e ferroviários para a região, os problemas logísticos, os gigantescos requisitos financeiros, os danos ambientais, etc.), Sócrates mantém uma fé inabalável na construção do aeroporto na Ota, assumindo-o como um desígnio nacional de inquestionável urgência e interesse para o país.

Porém, a realidade poderá ser bem distinta. Depois de vários anos a construir e propagandear a imagem de um político resoluto e inquebrantável, Sócrates pura e simplesmente não pode ceder, mesmo que os argumentos técnicos e/ou políticos o recomendassem vivamente. De certo modo, Sócrates vive e alimenta-se da sua própria teimosia, afinal o seu maior trunfo político. Assim sendo, e para assegurar a sua sobrevivência, Sócrates poderá ter que enveredar por caminhos que serão prejudiciais para o país. Eis um sério risco que corremos.

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