terça-feira, abril 24, 2007

O voto francês

A primeira volta das eleições francesas não produziu grandes surpresas, com a excepção dos níveis de participaçãoverdadeiramente assombrosos (84%), num país onde os cidadãos parecem geralmente cansados da política. Sarkozy foi o mais votado (31%), superando largamente o resultado de Chirac em 2002 (mais 12%, correspondente a quase 6 milhões de votos). Seguiram-se Ségolène Royal (25,9%) e François Bayrou (18,5%). A primeira, campeã das frases vazias, defensora dos bons costumes e encarnação política da estética da SIC Mulher, segue para a segunda volta. Pelos vistos, mais de 9 milhões de franceses anseiam por uma governante especializada em tiradas monossilábicas e discursos vagos.

Bayrou, o “candidato centrista”, optou por não se comprometer com uma concepção política, adoptando uma retórica próxima da teologia negativa: “eu não sou de esquerda nem de direita”; “eu não sou nem a favor nem contra a Constituição europeia”; “eu não defendo nem ataco a imigração”; “eu não gosto de fiambre nem de ovos mexidos”. A ambiguidade valeu-lhe quase 7 milhões de votos.

A paixão francesa pelos discursos obscuros puniu naturalmente os ideólogos mais comprometidos. Os extremistas sofreram pesadas derrotas: Le Pen não chegou aos 11 % e perdeu um milhão de votos em relação a 2002. Os múltiplos candidatos da extrema-esquerda, incluindo anarquistas, trotsquistas e comunistas – que habitualmente têm uma boa base de apoio em França – tiveram resultados insignificantes.

A segunda volta decidir-se-á, como é costume, ao centro. Os apoiantes de Le Pen tenderão a votar Sarkozy, mas muitos não irão às urnas. A esquerda mais radical odeia Sarkozy, mas detesta igualmente Ségolène, a quem acusam de trocar o socialismo por um ideal conservador. De um modo geral, ficarão em casa no dia 6 de Maio. Em causa estão, por conseguinte, os 6 milhões e 800 mil votos de Bayrou, que Sarkozy e Ségolène cobiçarão nos próximos dias. Os media aguardam uma tomada de posição do candidato centrista, cujo apoio poderia ser decisivo na 2ª volta. No entanto, tendo em conta a tendência de Bayrou para não se comprometer politicamente, é bem provável que nunca se ouça uma declaração definitiva. Um palpite pessoal: ou Ségolène se decide, de uma vez por todas, a defender uma ideia que seja, ou Sarkozy, mais resoluto, mais claro, mais audaz – embora menos popular – conseguirá o lugar no Eliseu.

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