quarta-feira, maio 02, 2007

Lost in Translation

Há uns tempos, escrevi um post sobre os lastimáveis trabalhos de tradução produzidos para a televisão e para o cinema. Alguns amigos criticaram-me, considerando excessiva a minha observação. Infelizmente, os exemplos gerados desde aí parecem continuar a dar-me razão. Ainda na segunda-feira, a série “Mentes Criminosas” (AXN) motivou um caso notável. O episódio tratava de um serial killer que assassinava prostitutas em Washington. Inicialmente, os ataques ocorriam em becos escuros, mas posteriormente o psicopata atacava as vítimas de modo quase indiscriminado. Encontrando uma das prostitutas assassinadas junto ao Capitólio, um investigador afirma: “He is getting bolder” ("ele está a tornar-se mais ousado"). Tradução? “Ele está a tornar-se mais careca (balder)” (!!!).

Este exemplo patético não tem a ver com “falta de tempo”, nem prazos apertados, como sugeriam as minhas amigas C. e H., já que se tratava de uma simples frase. O problema é mesmo a incompetência. Pois, das duas uma: ou o tradutor não viu o episódio e não sabe que “bold” (ousado) não tem nada a ver com “bald” (careca) – e devia mudar de ramo; ou viu o episódio e achou que um serial killer, depois de esventrar quatro prostitutas, começou de súbito a perder o cabelo. O que até teria a sua graça, convenhamos.

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sábado, fevereiro 24, 2007

Traduttore, traditore

A ambivalência que rodeia o mercado da tradução é inexplicável. De um lado, as traduções literárias e científicas, de qualidade apreciável, por via do empenho de especialistas rigorosos e bem preparados. Do outro, as traduções televisivas e cinematográficas, miseráveis e pavorosas.

Nos últimos dias registei vários erros grotescos de toda a ordem. Numa série do AXN, um jovem confessa a um juiz ter consumido marijuana: "Yes, I was high." ("Sim, eu estava pedrado"). O tradutor preferiu um "Sim, eu estava alto". Numa cena do filme ainda em exibição "O Último Rei da Escócia", o actor principal (um médico escocês) marca um golo num jogo de amigos, gritando "Another goal for Scotland!". Estarrecido, pude ler nas legendas: "Mais um objectivo para a Escócia!". Numa reportagem da RTP sobre uma aterragem descontrolada de um avião, um passageiro dizia que "as pessoas tinham ficado doentes", segundo a legendagem. O senhor tinha afirmado: "people were getting sick" ("as pessoas estavam a ficar enjoadas"). Numa série da TVI "prosecutor" surge como "promotor", quando a referência era obviamente ao "advogado de acusação". Num western, um assalto a uma diligência (the stage [coach]) foi transformado num assalto ao "teatro". Por fim, parabéns à imaginação do tradutor do filme "O Patriota" (SIC), que conseguiu ver na "French and Indian War" (Guerra dos Sete Anos ou Guerra da França e da Índia) uma "Guerra da França contra a Índia", num interessante exercício revisionista.

Estes exemplos – a que se poderia juntar a célebre tirada "Vamos fazer uma tosta! (Let’s make a toast!)" (quando no ecrã podíamos ver três companheiros a fazer um brinde) – configuram erros demasiado grosseiros para afirmarmos que se trata de falta de competência. Referi-me apenas a casos de língua inglesa, para a qual existem milhares de pessoas capazes em Portugal, e a exemplos que um aluno do 7º ano saberia resolver sem dificuldades. Não se trata portanto de um problema de falta de qualificação.

O que está em causa é a atitude do mercado de tradução relativamente ao espectador. Enquanto uma tradução de um livro, de um folheto informativo ou de uma conferência, são consideradas tarefas de indiscutível relevância pública – exigindo um elevado rigor, as traduções televisivas ou cinematográficas são entendidas, pelo próprio mercado de oferta, como um exercício de somenos importância, uma função que não merece verdadeiramente a mesma diligência dos tradutores, que facilmente trocam a qualidade do seu produto pela rapidez com que efectuam a sua tarefa. O resultado é a prestação de um serviço lastimável, que irrita o consumidor, tanto mais que o problema poderia ser resolvido com duas medidas elementares: bastaria um pouco mais de empenho e uma dose razoável de bom-senso.

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