terça-feira, abril 17, 2007

Choque tecnológico

A Repartição de Finanças do meu Bairro Fiscal está de cara lavada. É verdade que persiste um curioso cheiro a mofo, que não existem cadeiras suficientes nem ar condicionado, e que os guichés abandonados e os funcionários impacientes continuam por lá, mas a Repartição está agora equipada com um novo painel electrónico, facilitando a contagem de senhas e a chamada dos utentes.

Quando notei que tinha na mão o D105, e vi no dito painel D90, exultei – prevendo ingenuamente uma visita curta. Vinte minutos depois ainda estava no D91, e uma hora mais tarde andávamos pelo D95. De súbito, uma voz abatida apregoa: “F78! F78!”. Não deve ser nada comigo. O F78 foi lá abaixo pôr dinheiro no parquímetro, responde alguém. Nesse caso, é melhor esperar por ele, suponho. O funcionário acha o mesmo, aproveitando para esclarecer que o painel deixou de funcionar: o computador hoje não quer trabalhar, justifica. O malandro.

São quase 4 da tarde e a malta quer ir para casa. Os guichés são ocupados com rapidez e os procedimentos aceleram. A juntar ao calor insuportável que se sente na sala – a que acresce o indispensável cheiro a suor – ouve-se agora um coro extraordinário: “G36! C12! Alguém viu o C12? Senha azul! Senha azul!”. Uma senhora idosa chega-se à frente: “Eu sou o B12”. “Não é o B12, é o C12!”. Pronto, pronto, não se enerve. Um jovem acorda de um sono profundo e clama ser o proprietário do D99. Pena já irmos no D103. O jovem protesta: “isto é uma merda!”. As velhotas indignam-se, os funcionários queixam-se do painel, que continua bloqueado. A confusão está instalada, a senhora do F78 ainda deve andar de volta do parquímetro, são 16 e 25. “Nunca mais chego a casa”, lamenta a funcionária que trata do IVA.

“D105!”, ouço. A redenção chega tarde, mas estou salvo. Uma Repartição de Finanças com cinco guichés conseguiu atender 21 pessoas numa hora e cinquenta minutos. Depois queixam-se da fuga ao fisco.

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domingo, fevereiro 18, 2007

A natureza da praxe

Eis um tema que chega aos jornais ao ritmo lento das denúncias. Na última semana, a história da aspirante Cláudia Almeida Brito chocou a opinião pública e relançou o debate. Alvo de múltiplas agressões, incluindo pontapés e coronhadas na cabeça, vítima de abusos continuados, a aspirante não resistiu e viu-se forçada a desistir do tirocínio no quartel de Mafra. As investigações já começaram, mas é óbvio que, como de costume, irão esbarrar numa cortina de silêncio e cumplicidade.

O Expresso entrevistou figuras públicas ligadas ao Exército, em busca de declarações sobre o fenómeno. As respostas de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço e Loureiro dos Santos reflectem convicções comuns na sociedade portuguesa: a tradição da praxe serve para “integrar” e “facilitar o entrosamento”, mas, se executada com violência, é reprovável e os seus autores devem ser punidos. Nada mais falso.

O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir. Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide. Evitando uma longa e penosa explicação teórica destas circunstâncias, a praxe manifesta, num instante físico conciso e intenso, os contornos exactos dessas regras, instaurando uma relação imediata entre o senhor e o servo, o dominador e o submisso.

Não se trata pois de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado e cínico exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram.

Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe. Sem excepções.

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