quinta-feira, setembro 20, 2007

Nulidade...vezes dois

O debate entre Luís Filipe Menezes e Marques Mendes – tão discutido entre os dois, tão polémico, tão evitado – foi afinal uma desilusão. Terá merecido pouco mais que um longo bocejo.

Mendes é a incarnação política da boçalidade, um tipo com quem jogaríamos uma sueca sem hesitar, mas com o qual jamais discutiríamos literatura, cinema ou... política. É espantoso como consegue proferir absolutas vacuidades convencido de que acabou de descobrir a pólvora. E sou levado a concordar com Jorge Coelho: o episódio do ataque ad hominem a Armando Vara foi lastimável e totalmente despropositado.

Menezes é um populista a querer passar por grande pensador e proeminente estadista, com pose de primeiro-ministro e de “animal político”. Um momento do debate define perfeitamente o seu carácter. Quando Ana Lourenço o interrogou sobre se ele deixaria o cargo de Presidente da Câmara de Gaia se ganhasse as directas no partido, Menezes lançou a mais rasteira e hipócrita resposta possível: “Já tomei uma decisão internamente, mas só a revelarei no momento certo”. Típico: não se comprometendo com nenhuma resposta, nem aliena os militantes do PSD (que nunca votariam nele se não se dedicasse a 100% à liderança do partido), nem aliena os eleitores de Gaia (não vá ser necessário novo tacho daqui a três anos). Uma resposta que tem tudo aquilo que enoja na política: um tacticismo e uma cobardia insuportáveis.

Vão perder os dois e vai perder o país.

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terça-feira, agosto 07, 2007

Os gladiadores

Os candidatos à liderança do PSD bem apregoam que pretendem “discutir ideias”, “projectos”, “políticas para o país”. Claro que tudo não passa de um processo de intenções (e se calhar nem isso). Assistimos diariamente a azedas trocas de palavras, insinuações rasteiras e ataques pessoais, sempre em torno de questões comezinhas como os “estatutos”, as “quotas”, o “diz que disse” e as dispensáveis apreciações de carácter. Cada vez mais, o PSD transmite ao país uma imagem de verdadeira putrefacção, qual partido em processo de implosão. E se o estilo trauliteiro de Menezes é abjecto, a absoluta inépcia política e conceptual de Marques Mendes é confrangedora. O embate entre ambos pode agradar ao público adepto do Wrestling, mas servirá apenas para afastar ainda mais os eleitores dos social-democratas.

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segunda-feira, março 26, 2007

Art Expresso

Actualmente é de bom tom enaltecer a determinação de Sócrates, em contraste com a desorganização que grassa na oposição. Todavia, os jornalistas – e os jornais de referência em particular – têm a obrigação de resistir a estas tendências e assumir uma posição mínima de imparcialidade. Isto não significa uma diminuição do sentido crítico, mas sim a necessidade de rejeitar abordagens preconceituosas, que ora demonizam ora deificam personagens e movimentos políticos. Por outras palavras, exige-se que o jornalista, manifestando uma opinião (e tratando-se de uma reportagem ou da divulgação de uma notícia), não conduza o leitor a uma interpretação circunscrita da mesma.

O Expresso caminha em sentido contrário, apoiando sem despudor as medidas do Governo e ridicularizando a oposição. Sirva de exemplo a reportagem na pág. 2 – “a história do coração que atrasou Sócrates” – que já na passada semana recebera honras de primeira página. Trata-se de uma “notícia” que se presta apenas a destacar a compaixão socrática, que através de um acto heróico salvou uma criança de 2 anos; tudo porque o avião do primeiro-ministro foi ao Funchal buscar um coração para um transplante, tendo aliás feito Sócrates chegar atrasado ao Conselho Europeu. Uma verdadeira história de encantar, com efeitos puramente propagandísticos.

Simultaneamente, a oposição é escarnecida ao longo do jornal, através de inenarráveis escolhas gráficas. Na pág. 10 lemos uma reportagem intitulada “A desafinada banda do PSD”, sobre a oposição interna à liderança de Marques Mendes. A ilustração? Uma fotomontagem em que Marques Mendes, meio-Nosferatu, meio-Conde Drácula, surge com um olhar tresloucado, em pura meditação transcendental a la Zandinga. A rodeá-lo, várias cabeças de políticos em corpos alheios, tocando uma série de instrumentos. Gostei especialmente do baixista Santana Lopes e de uma inconcebível montagem de Paulo Portas tocando guitarra em tronco nu. Apenas duas perguntas: o que é que Portas tem a ver com a oposição interna do PSD e porque diabo o Expresso se presta a ridicularizar-se a si próprio juntando à cabeça de Portas um tronco nu peludo de outra pessoa?

Já na página 7, e a pretexto de uma notícia sobre o CDS, encontramos uma espantosa montagem de Maria José Nogueira Pinto, transformada pelo grafismo de Miguel Seixas numa imagem de Belzebu, apenas com um corno lateral, mas com a inconfundível cauda demoníaca, tudo isto enquadrado com umas chamas em fundo. Jornalismo de qualidade, sem dúvida.

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