terça-feira, maio 29, 2007

Mau jornalismo: um exemplo

A complexificação das sociedades trouxe um desenvolvimento sem paralelo nas formas comunicativas, mas um dos seus efeitos perniciosos reside na aparente diminuição da relevância do “factor humano”. Com um aparelho auxiliar tecnológico de extraordinária dimensão, os indivíduos têm vindo a desenvolver mecanismos de relaxamento e desconcentração, do qual nasceram pequenos hábitos de descuido, rapidamente transformados em práticas desleixadas e nocivas.

Este facto é especialmente visível nos media, onde a parafernália técnica quase que dispensa o jornalismo, pois a imagem (seja na televisão, seja nos periódicos) é suficiente como “narrativa” e “ilustração”. Nos últimos anos, esta tendência tem aumentado exponencialmente, e hoje é raro o espaço noticioso em que não sucedam negligências, descuidos ou até mesmo graves incompetências no exercício jornalístico. O Blasfémias e A Grande Loja apresentam dois casos interessantes (aqui e aqui), mas existem muitos outros exemplos.

Como o do artigo assinado por Isabel Oliveira, no Expresso do passado sábado (pág. 11). O texto é sobre a Governadora Civil de Lisboa (Adelaide Rocha) e as críticas que a sua conduta mereceu, a propósito da marcação das eleições para a Câmara a 1 de Julho (data que favorecia os partidos e prejudicava as candidaturas independentes), destacando a evidente posição “partidária” de Adelaide Rocha, que não se coibiu de apoiar pessoalmente a candidatura de António Costa (que a nomeou justamente quando era ministro da Administração Interna).

De súbito, somos confrontados com as seguintes frases bizarras: “Maria Adelaide Rocha, de 58 anos, não dá grande importância às críticas que lhe são endereçadas de parte a parte. O currículo profissional que granjeou na área da Cultura tornaram-na praticamente imune às tricas partidárias. Sublinho que se trata de um corpo de texto sem aspas no original. O que é especialmente grave, pois dá a entender que se trata de uma opinião da jornalista, ainda para mais contrária à lógica de denúncia de um comportamento censurável que encontramos no resto do artigo.

Perante este cenário, há duas hipóteses. Ou se trata efectivamente de uma afirmação da jornalista – e é grave porque contém uma evidente e inaceitável opinião subjectiva partidária e partidarizante, que iliba a dita governadora de todas as dúvidas que a própria a notícia levanta; ou estamos perante uma declaração da própria governadora, e nesse caso aquela frase devia obviamente vir entre aspas, esclarecendo tratar-se de uma citação.

Dirão que se pressupõe que aquelas frases, tão decisivas no contexto do artigo, são da própria governadora. É até provável que assim seja, mas importa sublinhar que o jornalismo é um exercício de informação rigorosa, e não um concurso de intenções.

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sexta-feira, maio 18, 2007

No pasa nada

O desemprego continua a aumentar a um ritmo impressionante, cifrando-se agora nos 8,4%. Em Portugal existem cerca de 500 mil pessoas que não têm trabalho. As políticas reformistas de Sócrates falham em toda a linha e a “estratégia de contenção financeira” – verdadeiro desígnio nacional – diminuiu o poder de compra dos cidadãos e restringiu benefícios sociais e fiscais. O país não sai da cepa torta. Somos os que menos crescemos na UE, somos cada vez mais últimos na educação, na saúde, na qualidade de vida, e cada vez mais primeiros no aumento de impostos, na inflação, no preço dos combustíveis. Somos ridículos, somos patéticos.

Tema de sobra para os telejornais? Nada disso! Tudo porque a esposa de um sujeito russo que talvez tenha visto a “pequena Madeleine” vai prestar depoimento à polícia: 19 minutos na SIC Notícias. Segue-se mais um exclusivo: descubra como o “caso Madeleine” vai prejudicar o turismo no Algarve. Não saia do seu lugar: mais à frente, conheça a história do homicida de uma adolescente no Barreiro, condenado a 21 anos de prisão. E, claro, há ainda a extraordinária notícia da substituição do cônsul honorário em Cabo Frio.

Depois de tudo isto, e se ainda alguém tiver resistido, ficará por fim a saber que o desemprego em Portugal é o mais elevado desde 1986. “O mais elevado desemprego desde 1986”? Como diriam os ingleses, “who cares?”.

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segunda-feira, maio 07, 2007

Opções

Na Madeira, Alberto João Jardim consegue uma vitória histórica, obtendo mais do quádruplo dos votos do PS. Ontem decorreu a segunda volta das eleições presidenciais francesas, onde votaram mais de 35 milhões de pessoas, com um triunfo notável de Sarkozy. Hoje foi divulgado um relatório da UE que cria grandes dúvidas acerca do controlo do défice em Portugal (o tal que obriga a enormes sacrifícios dos portugueses), e que confirma que o nosso país tem o pior crescimento económico da UE pelo sétimo ano consecutivo.

Qual é a notícia de abertura do telejornal da SIC Notícias? No Algarve, a polícia continua as buscas para encontrar a “pequena Madeleine”.

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sábado, maio 05, 2007

O regresso do circo

Como o "caso Esmeralda" está encerrado, os jornalistas portugueses – sempre ansiosos por mais uma história de faca e alguidar – regalam-se com o desaparecimento de uma criança inglesa no Algarve. Os noticiários dedicam largos minutos ao caso da "pequena Madeleine" (excelente prolongamento linguístico do "caso Esmeralda"), em directos com testemunhos da população (que naturalmente nada sabe, nada viu, nada ouviu), declarações da polícia (que se refugia no estafado "estamos a investigar"), e ainda, obviamente, com o pedido de auxílio dos pais, repetido até à exaustão.

Verdadeiramente espantosas são as reportagens sobre o modo como a imprensa inglesa aborda o caso, notável exemplo do tema "o jornalismo dentro do jornalismo dentro do jornalismo", que revela o nosso inultrapassável provincianismo (não há nada de que os portugueses gostem mais do que ser tema de reportagem "lá fora"), e o patético egocentrismo da imprensa nacional, sempre em busca das "reacções estrangeiras" e da auto-referência. Tudo isto oferecido em pacotes sentimentalistas, em narrações arrastadas e melancólicas e com Chopin em música de fundo.

Todas as semanas desaparecem crianças em Portugal, levadas para o mundo da pedofilia, da escravatura laboral, da prostituição. As famílias nunca verão o seu rosto na televisão: são casos demasiado vulgares para merecerem um espectáculo mediático.

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sábado, abril 21, 2007

Jornalismo maniqueísta

O João Caetano Dias tem toda a razão: a cobertura jornalística das eleições em França demonstra uma parcialidade e um facciosismo político inaceitáveis.

Ségolène Royal é apresentada como o rosto da “Esquerda Moderna” (seja lá o que isso for), mulher bonita, decidida, inteligente, com um programa social adequado às exigências dos novos tempos, atenta à globalização e aos problemas internacionais, mas compassiva com as dificuldades dos franceses que mais sofrem. A salvação da França – ouvimos e lemos repetidas vezes nos órgãos de comunicação social – depende da sua eleição. Pouco importa a esta gente que Ségolène Royal seja a absoluta negação da política, uma oportunista que se limita a debitar vacuidades, tudo envolto num look muito moderno, muito snob, muito Lux. Mas, claro, nada como uma candidata fashion para animar o jornalismo sedento de eventos mediáticos.

Sarkozy, pelo contrário, reúne todos os defeitos do mundo. É arrogante, antipático, autoritário e pouco dado a vernissages. É contra os estrangeiros, despótico com os jovens e indiferente às velhinhas. Está-se nas tintas para os problemas sociais. Não quer saber dos conflitos internacionais. Anseia pelo poder, para se servir do poder. É auto-centrado, egoísta, vaidoso. Os portugueses em França não gostam dele e ele não gosta dos portugueses em França. É uma espécie de Le Pen, mas um Le Pen menos detestável – assim como um lobo mau com consciência moral. Méritos que justifiquem a liderança nas sondagens? Nenhuns. Tudo se deve à “propaganda” e ao “ideal extremista” que reina em alguns sectores da sociedade francesa.

Curiosamente, os jornalistas que veiculam este ridículo maniqueísmo são os mesmos que zombam diariamente da visão do mundo defendida por Bush, que tanto gosta de dicotomias e análises simplistas. Vá-se lá perceber.

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quinta-feira, abril 05, 2007

Alguém falou em censura?

Ainda a propósito do artigo de Vicente Jorge Silva, chamo a atenção para uma passagem despercebida, que constitui no entanto um bom exemplo de uma lamentável prática cada vez mais comum entre agentes governativos e alguns opinion-makers: o ataque à imprensa e às novas formas de comunicação (nomeadamente à blogosfera). A passagem reza assim: “Muito antes do descalabro da Universidade Independente e das notícias dos jornais, já o currículo de Sócrates era maldosamente referido na blogosfera, essa outra praga moderna que escapa ao controlo dos poderes públicos (...)”.

Esta passagem rancorosa (ao melhor estilo do Procurador-Geral da República) mostra como esta gente convive muito mal com a liberdade de imprensa, com a denúncia pública e com a existência de um espírito crítico do cidadão comum (esse ser aberrante que se atreve a apontar erros aos governantes a partir do seu computador pessoal) – no fundo, com a sociedade aberta que submete os ocupantes de cargos públicos a um permanente e rigoroso escrutínio. Afinal, parece que as saudades do lápis azul não são um privilégio da Direita.

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Ser ou não ser Engenheiro: uma clarificação (II)

Este artigo de Vicente Jorge Silva faz-me regressar ao tema da “licenciatura” de Sócrates. O argumento não é diferente daquele que a inteliggentsia socialista tem avançado nas últimas semanas: Portugal é um país de invejosos e gente mesquinha onde se pensa que ter um canudo é condição necessária para se ser bem-sucedido num cargo público.

Não vale a pena insistir nesta tese. A partir do momento em que o próprio primeiro-ministro introduziu na sua biografia oficial um título académico – do qual recorrentemente se vangloria (não por acaso os jornalistas se referem ao “Engenheiro Sócrates”) – a questão de saber se esse título foi obtido de modo ilícito é matéria relevante. Repito: ninguém, no seu perfeito juízo, acha que Sócrates será um mau primeiro-ministro se não for Engenheiro. Mas haverá muito boa gente – na qual me incluo – que considera grave que o primeiro-ministro português possa ter manipulado documentos e utilizado a sua influência pessoal para obter um grau académico. De uma vez por todas: esta não é uma questão de títulos nem de ordens, mas sim um problema ético. O que está em causa não é a carreira académica de Sócrates, mas o seu carácter.

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segunda-feira, março 26, 2007

Art Expresso

Actualmente é de bom tom enaltecer a determinação de Sócrates, em contraste com a desorganização que grassa na oposição. Todavia, os jornalistas – e os jornais de referência em particular – têm a obrigação de resistir a estas tendências e assumir uma posição mínima de imparcialidade. Isto não significa uma diminuição do sentido crítico, mas sim a necessidade de rejeitar abordagens preconceituosas, que ora demonizam ora deificam personagens e movimentos políticos. Por outras palavras, exige-se que o jornalista, manifestando uma opinião (e tratando-se de uma reportagem ou da divulgação de uma notícia), não conduza o leitor a uma interpretação circunscrita da mesma.

O Expresso caminha em sentido contrário, apoiando sem despudor as medidas do Governo e ridicularizando a oposição. Sirva de exemplo a reportagem na pág. 2 – “a história do coração que atrasou Sócrates” – que já na passada semana recebera honras de primeira página. Trata-se de uma “notícia” que se presta apenas a destacar a compaixão socrática, que através de um acto heróico salvou uma criança de 2 anos; tudo porque o avião do primeiro-ministro foi ao Funchal buscar um coração para um transplante, tendo aliás feito Sócrates chegar atrasado ao Conselho Europeu. Uma verdadeira história de encantar, com efeitos puramente propagandísticos.

Simultaneamente, a oposição é escarnecida ao longo do jornal, através de inenarráveis escolhas gráficas. Na pág. 10 lemos uma reportagem intitulada “A desafinada banda do PSD”, sobre a oposição interna à liderança de Marques Mendes. A ilustração? Uma fotomontagem em que Marques Mendes, meio-Nosferatu, meio-Conde Drácula, surge com um olhar tresloucado, em pura meditação transcendental a la Zandinga. A rodeá-lo, várias cabeças de políticos em corpos alheios, tocando uma série de instrumentos. Gostei especialmente do baixista Santana Lopes e de uma inconcebível montagem de Paulo Portas tocando guitarra em tronco nu. Apenas duas perguntas: o que é que Portas tem a ver com a oposição interna do PSD e porque diabo o Expresso se presta a ridicularizar-se a si próprio juntando à cabeça de Portas um tronco nu peludo de outra pessoa?

Já na página 7, e a pretexto de uma notícia sobre o CDS, encontramos uma espantosa montagem de Maria José Nogueira Pinto, transformada pelo grafismo de Miguel Seixas numa imagem de Belzebu, apenas com um corno lateral, mas com a inconfundível cauda demoníaca, tudo isto enquadrado com umas chamas em fundo. Jornalismo de qualidade, sem dúvida.

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segunda-feira, março 19, 2007

Os americanos (II)

Os americanos são estúpidos. Eis uma crença bem difundida entre os europeus – provavelmente para esconder a sua própria estultícia e provincianismo. Actualmente circula no YouTube um vídeo onde se procura confirmar aquela asserção. O método é conhecido: um grupo de “jornalistas” bem-intencionados interroga indivíduos “ao acaso” sobre questões a que qualquer cidadão bem informado saberia responder sem pestanejar. Nesta ocasião, todavia, o resultado é catastrófico, com respostas absolutamente imbecis.

Na verdade, trata-se de um mito – de um duplo mito, aliás. Em primeiro lugar, este tipo de iniciativas “jornalísticas” é uma farsa. O que os espectadores vêem é naturalmente o resultado de uma escolha editorial, que elimina as respostas acertadas e selecciona as intervenções mais estapafúrdias, de modo a ilustrar o argumento (pré-definido). Nunca saberemos o que aconteceu nos casos em que cidadãos normais responderam correctamente às perguntas em causa – momentos que não servem para alimentar o espectáculo. Ao invés, encontrando o jornalista um indivíduo ignorante, não mais o larga, procurando arrancar-lhe respostas idiotas. Posteriormente, bastará intercalar esses planos entre meia-dúzia de outras respostas erradas para dar a sensação de que se trata de um painel significativo e representativo. Um excelente exemplo de manipulação jornalística ao serviço do mais básico proselitismo político ou cultural.

No entanto, mais grave que a mistificação jornalística é o mito propriamente dito de que os americanos são estúpidos e de que os europeus, ao invés, são especialmente sábios. É aliás comum ouvir-se e ler-se que “os americanos não sabem nada da Europa”. A generalização é ridícula: muitos americanos inspiram-se em exemplos culturais europeus e conhecem razoavelmente bem a Europa; como também muitos estudantes, e outros grupos educados sabe aspectos gerais da história e da política europeias. Por outro lado, ninguém duvida que existe uma enorme fatia de cidadãos ignorantes, como em qualquer parte do mundo.

Porém, importa questionar: e os europeus, serão assim tão conhecedores dos EUA (e até mesmo da sua própria história, geografia e política)? Quantos europeus já foram de facto à América? Quantos conseguiriam identificar metade dos Estados que constituem aquele país? Quantos saberão o nome do actual Vice-Presidente? Quantos sabem que a capital do Estado de Nova Iorque não é Nova Iorque, mas sim Albany? Quantos saberão dizer se Bush é Republicano ou Democrata? Quantos conhecem o índice de crescimento dos EUA, ou o seu défice, ou o valor das suas taxas de juro? Quantos sabem dizer quem foi Jefferson ou John Adams? Ou em que data se tornaram independentes?

Convencidos de que Hollywood é uma fiel janela para os EUA – e seguros de que do outro lado do Atlântico não existem mais do que restaurantes de fast-food, cantores de country pirosos e adolescentes gordos – os europeus seguem as suas vidinhas, zombando de uma cultura e de um país que não conhecem. Certos da sua superioridade intelectual, os europeus estão demasiado ébrios para questionarem os seus próprios defeitos e incapacidades.

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terça-feira, março 06, 2007

Estranhas recordações

A propósito dos 50 anos da RTP, a revista “Única” do Expresso publicou uma reportagem na qual selecciona cinquenta momentos marcantes “para a história da televisão nacional”. Todos os tops são razoavelmente polémicos, mas este exercício do jornalista Nelson Marques é um equívoco inexplicável.

A falta de critério é gritante, numa selecção repleta de omissões imperdoáveis, mas onde há lugar para eventos insignificantes. Com efeito, a transmissão televisiva do Grande Prémio de Fórmula 1 e a transmissão da Guerra do Iraque (2003) não são propriamente momentos de viragem. E como explicar a singularidade do exclusivo da RTP dos preparativos do casamento do duque de Bragança (que levaria à perda do primeiro lugar nas audiências) ou a cena de Cavaco Silva mastigando um bolo-rei em directo? Só faltava incluir as gaffes de campanha de António Guterres e de Valentim Loureiro, ou os discursos pedagógicos de Fátima Felgueiras!

Por outro lado, existem incompreensíveis ausências. Se se escolhe a transmissão da série “Major Alvega” e o surgimento do “Contra-Informação” como duas ocasiões inesquecíveis, então não poderia faltar uma referência ao “Tal Canal” e ao “Herman Enciclopédia”, momentos culminantes do humor televisivo em Portugal. E como explicar que nas últimas 13 selecções, desde 1992 – isto é, desde o aparecimento da SIC e da TVI – apenas três (!) sejam menções directas aos canais privados? Além da Alberta Marques Fernandes, o Big Brother e a SIC Notícias, não há nada a referir? Definitivamente, o preconceito do “politicamente correcto” ainda impregna muitas reportagens jornalísticas, que se pretendiam um tudo ou nada mais ousadas.

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segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O homem certo no tempo errado

António José Teixeira tem os dias contados à frente do Diário de Notícias. Lamento-o sinceramente. Teixeira é um homem íntegro e um jornalista moderado, com um discurso claro, esclarecido, sem fazer uso da retórica e da argumentação fácil, que prefere o discernimento e o sentido crítico à análise mediática e precipitada. Não enveredou pelo radicalismo que parece ser hoje requisito de um jornalismo “de causas”, embora tenha adoptado uma postura mordaz e acutilante face aos poderes estabelecidos. Circunspecto e moderado, afável no trato, António José Teixeira encontra-se nos antípodas das modas jornalísticas hodiernas, que vivem do pitoresco, do acessório, de notícias circenses e do espectáculo da imagem. Será difícil resistir num ambiente tão adverso à sua natureza intrínseca.

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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Rosa brava

Nesta sociedade mediatizada, os factos são indiferentes, o que importa é a narrativa. Assim sendo, informar tornou-se num exercício jornalístico supérfluo e dispensável.

Vem isto a propósito da grotesca “reportagem” (as aspas são um favor) apresentada pela SIC no Jornal da Noite, sobre uma tal de Rosa, adolescente de 16 anos “que não pode ir à escola”, passando os seus dias ajudando o pai a pastorear ovelhas. A peça foi um exemplo antológico de um novo estilo de apresentação jornalística: histórias banais sobre pessoas vulgares em situações comuns – que verdadeiramente não interessam a ninguém. Nada que um bom embrulho não transforme: texto poético, com tiradas lamechas, declamado por uma voz embargada; musiquinha de fundo (um piano ou um violino melancólico), dois ou três planos de pessoas tristes/pobres/desgraçadas. Pronto a vender, com o slogan “jornalismo de causas”.

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