terça-feira, agosto 07, 2007
Marcos Perestrello, número quatro da lista do PS nas eleições de Lisboa, foi escolhido para Vice-Presidente da Câmara Municipal. O ex-deputado, eleito pelo círculo de Beja para a Assembleia da República, torna-se assim o braço-direito de António Costa. Parece-me bem. Já temos um Presidente que vive em Sintra. Um dos líderes da oposição ao executivo era vereador em Setúbal. E agora o vice-Presidente vem de Beja. Ainda dizem que Lisboa não é uma cidade cosmopolita.
sexta-feira, junho 08, 2007
A culpa é tua
Os últimos dias foram pródigos na arte de lavar as mãos. João Soares, Santana Lopes e Carmona Rodrigues envolveram-se numa troca de acusações a propósito da crise financeira que assola a Câmara de Lisboa – num espectáculo pouco edificante – recorrendo a um tradicional instrumento da política portuguesa: a desresponsabilização.
João Soares encarna Lula da Silva: não viu nada, não sabe de nada, é um anjo que serviu a cidade e se houve falcatruas na sua Presidência, ele não foi informado. Mas de uma coisa tem a certeza: a culpa é de Santana e de Carmona. E se calhar, de Krus Abecassis.
Carmona Rodrigues assume o papel de Scarface: dispara em todas as direcções, acusando sem provas e abusando da denúncia sugerida; estranhamente amnésico em relação à liderança de Santana (quando era número dois do executivo), tornou-se o mestre do cliché – com ele “o que conta é Lisboa”, “as pessoas de Lisboa” e “a cidade”. A culpa, claro, é dos partidos. Os tais que permitiram que Carmona fosse Ministro das Obras Públicas e Presidente de Câmara. Malandros.
Santana Lopes, naturalmente, continua a desempenhar como ninguém o papel de Kalimero: ele é o “menino guerreiro” que queria “salvar Lisboa” das garras do lobo mau (Soares), mas “algumas pessoas” e “algumas situações” não deixaram; é tão bondoso, tão bondoso, que soube atempadamente de esquemas ilícitos perpetrados por João Soares e mesmo assim não disse a ninguém, “porque isso compete às autoridades”. A culpa é de Carmona, um ingrato; Marques Mendes, outro ingrato; e de forças obscuras controladas por Darth Vader.
A política portuguesa continua pois a ser um exemplo de virtude. “As pessoas estão de boa-fé”, garantia hoje Santana Lopes na SIC Notícias. Na verdade, a culpa é do mundo, que é mau como as cobras.
João Soares encarna Lula da Silva: não viu nada, não sabe de nada, é um anjo que serviu a cidade e se houve falcatruas na sua Presidência, ele não foi informado. Mas de uma coisa tem a certeza: a culpa é de Santana e de Carmona. E se calhar, de Krus Abecassis.
Carmona Rodrigues assume o papel de Scarface: dispara em todas as direcções, acusando sem provas e abusando da denúncia sugerida; estranhamente amnésico em relação à liderança de Santana (quando era número dois do executivo), tornou-se o mestre do cliché – com ele “o que conta é Lisboa”, “as pessoas de Lisboa” e “a cidade”. A culpa, claro, é dos partidos. Os tais que permitiram que Carmona fosse Ministro das Obras Públicas e Presidente de Câmara. Malandros.
Santana Lopes, naturalmente, continua a desempenhar como ninguém o papel de Kalimero: ele é o “menino guerreiro” que queria “salvar Lisboa” das garras do lobo mau (Soares), mas “algumas pessoas” e “algumas situações” não deixaram; é tão bondoso, tão bondoso, que soube atempadamente de esquemas ilícitos perpetrados por João Soares e mesmo assim não disse a ninguém, “porque isso compete às autoridades”. A culpa é de Carmona, um ingrato; Marques Mendes, outro ingrato; e de forças obscuras controladas por Darth Vader.
A política portuguesa continua pois a ser um exemplo de virtude. “As pessoas estão de boa-fé”, garantia hoje Santana Lopes na SIC Notícias. Na verdade, a culpa é do mundo, que é mau como as cobras.
Etiquetas: Lisboa, política portuguesa
terça-feira, junho 05, 2007
Lisboa descartável
Excertos de um texto certeiro de João Vieira Pereira, no Caderno de Economia do Expresso (sublinhados meus):
“(...) os sucessivos autarcas eleitos por Lisboa trabalham para que esta seja uma cidade para usar, mas não para viver. Tudo em Lisboa (e desconfio que no Porto também) é feito para facilitar a vida de quem se desloca todos os dias para trabalhar na cidade. Em contrapartida, quem nela mora vê a sua qualidade de vida diminuir ano após ano.
Um exemplo recorrente. Em qualquer lugar vago nas ruas da cidade surge de imediato um parque de estacionamento. Privado ou público é o negócio perfeito. A procura é garantida e a taxa de ocupação enorme. (...) No Arco do Cego (...) ainda foi projectado um jardim. Construiu-se metade, a outra é um parque de estacionamento provisório. E todos sabemos que no dicionário do autarca o sinónimo de provisório é eterno.
Falta vida em Lisboa fora dos abomináveis centros comerciais, falta o comércio virado para a rua, faltam esplanadas e espaços verdes agradáveis (...). O ar é cada vez mais irrespirável, a poluição sonora um dos maiores problemas. A isto temos de juntar os prédios abandonados, a sujidade das ruas, a degradação dos bairros típicos. (...)
Este privilégio dado a quem trabalha em Lisboa é completamente absurdo e a estratégia dos autarcas em apostar no bem-estar de quem nela não vota, talvez a maior estupidez política.”
“(...) os sucessivos autarcas eleitos por Lisboa trabalham para que esta seja uma cidade para usar, mas não para viver. Tudo em Lisboa (e desconfio que no Porto também) é feito para facilitar a vida de quem se desloca todos os dias para trabalhar na cidade. Em contrapartida, quem nela mora vê a sua qualidade de vida diminuir ano após ano.
Um exemplo recorrente. Em qualquer lugar vago nas ruas da cidade surge de imediato um parque de estacionamento. Privado ou público é o negócio perfeito. A procura é garantida e a taxa de ocupação enorme. (...) No Arco do Cego (...) ainda foi projectado um jardim. Construiu-se metade, a outra é um parque de estacionamento provisório. E todos sabemos que no dicionário do autarca o sinónimo de provisório é eterno.
Falta vida em Lisboa fora dos abomináveis centros comerciais, falta o comércio virado para a rua, faltam esplanadas e espaços verdes agradáveis (...). O ar é cada vez mais irrespirável, a poluição sonora um dos maiores problemas. A isto temos de juntar os prédios abandonados, a sujidade das ruas, a degradação dos bairros típicos. (...)
Este privilégio dado a quem trabalha em Lisboa é completamente absurdo e a estratégia dos autarcas em apostar no bem-estar de quem nela não vota, talvez a maior estupidez política.”
Etiquetas: Lisboa, palavras dos outros
quinta-feira, maio 03, 2007
O caos de Lisboa
Nesta triste história, PS e PSD não ficam nada bem na fotografia. O PSD, por razões óbvias. A escolha de Santana Lopes – o Kalimero português – redundou num erro político crasso, que deixou Lisboa durante vários anos ao abandono. Utilizando a Câmara como trampolim para o poder, Santana limitou-se a deixar o tempo passar, sem tomar decisões determinantes para o futuro da cidade. Seguiu-se Carmona Rodrigues, uma escolha pessoal de Marques Mendes, que triunfou pela sua honestidade e pela sinceridade do seu projecto político. Infelizmente, deu-se um desastre e a Câmara de Lisboa é hoje um freak-show, onde pululam oportunistas, corruptos e políticos absolutamente inábeis.
Vão aparecer muitos elogios a Marques Mendes, pela “coerência” demonstrada ao retirar o apoio a Carmona e ao pedir eleições intercalares, mas não creio que o líder do PSD mereça crédito por isso. Na verdade, não se tratou de uma verdadeira opção, mas de uma manobra de sobrevivência política – pois sem esta posição todo o programa moralista de Mendes ruiria, juntamente com a sua credibilidade e a sua capacidade de liderança. Além disso, onde estava Marques Mendes quando, há uns meses atrás, Fontão de Carvalho e Gabriela Seara foram constituídos arguidos? Onde estava Mendes quando a autarquia se afundava em escândalos de favorecimentos? Onde tem estado Mendes, afinal, à medida que a Câmara se afunda num vórtice de asneiras?
O PS também deve ser censurado, pois orientou a sua conduta por princípios puramente politiqueiros. Perante a catástrofe que atingiu a Câmara, veiculou sempre uma mensagem ambígua, criticando o executivo, mas sem exigir a consequência lógica: a convocação de eleições antecipadas. Naturalmente, fê-lo por duas ordens de razões. Por um lado, porque pretendia que o PSD se afundasse ainda mais ao longo dos próximos meses, para que o triunfo em 2009 não lhe escapasse em definitivo. Por outro lado, porque sabe que as eleições intercalares se referem apenas à autarquia, e não à Assembleia Municipal, onde o PSD detém maioria.
Receando o combate político, e o verdadeiro desafio que seria liderar o executivo camarário contra uma Assembleia hostil, o PS preferiu apostar numa estratégia cínica, aguardando a consumação da tempestade para depois recolher os despojos de guerra. Tudo isto com a conivência do seu Secretário-Geral, que ainda não se pronunciou uma única vez sobre o assunto.
Enquanto isto, Lisboa permanece uma cidade mais suja, mais feia, com mais trânsito, mais violência, casas a preços absurdos, uma rede de transportes públicos ridícula, uma zona ribeirinha atulhada em contentores, jardins abandonados, um programa cultural diminuto, uma administração pública abúlica, ruas esburacadas e obras intermináveis. Mas orgulhosa do seu casino, dos seus túneis e da Revista.
Vão aparecer muitos elogios a Marques Mendes, pela “coerência” demonstrada ao retirar o apoio a Carmona e ao pedir eleições intercalares, mas não creio que o líder do PSD mereça crédito por isso. Na verdade, não se tratou de uma verdadeira opção, mas de uma manobra de sobrevivência política – pois sem esta posição todo o programa moralista de Mendes ruiria, juntamente com a sua credibilidade e a sua capacidade de liderança. Além disso, onde estava Marques Mendes quando, há uns meses atrás, Fontão de Carvalho e Gabriela Seara foram constituídos arguidos? Onde estava Mendes quando a autarquia se afundava em escândalos de favorecimentos? Onde tem estado Mendes, afinal, à medida que a Câmara se afunda num vórtice de asneiras?
O PS também deve ser censurado, pois orientou a sua conduta por princípios puramente politiqueiros. Perante a catástrofe que atingiu a Câmara, veiculou sempre uma mensagem ambígua, criticando o executivo, mas sem exigir a consequência lógica: a convocação de eleições antecipadas. Naturalmente, fê-lo por duas ordens de razões. Por um lado, porque pretendia que o PSD se afundasse ainda mais ao longo dos próximos meses, para que o triunfo em 2009 não lhe escapasse em definitivo. Por outro lado, porque sabe que as eleições intercalares se referem apenas à autarquia, e não à Assembleia Municipal, onde o PSD detém maioria.
Receando o combate político, e o verdadeiro desafio que seria liderar o executivo camarário contra uma Assembleia hostil, o PS preferiu apostar numa estratégia cínica, aguardando a consumação da tempestade para depois recolher os despojos de guerra. Tudo isto com a conivência do seu Secretário-Geral, que ainda não se pronunciou uma única vez sobre o assunto.
Enquanto isto, Lisboa permanece uma cidade mais suja, mais feia, com mais trânsito, mais violência, casas a preços absurdos, uma rede de transportes públicos ridícula, uma zona ribeirinha atulhada em contentores, jardins abandonados, um programa cultural diminuto, uma administração pública abúlica, ruas esburacadas e obras intermináveis. Mas orgulhosa do seu casino, dos seus túneis e da Revista.
Etiquetas: Lisboa, política portuguesa
terça-feira, abril 10, 2007
De Santa Justa ao Recife
Um fim de tarde solarengo e um passeio pela Baixa. Num impulso improvável, o desejo de utilizar o elevador de Santa Justa e usufruir de uma panorâmica inimitável. O serviço desenrola-se com rapidez e eficiência. O elevador, velhinho, mas pitoresco, cumpre a sua função. Nos andares intermédios, admira-se a minuciosa construção de ferro. Para chegar ao topo é preciso subir uma apertada escada em caracol. Apesar dos muitos turistas, a ascensão processa-se com civismo e tranquilidade. Lá no alto espera-me uma vista desafogada, a indescritível luz de Lisboa, o Tejo de um azul transbordante, as casas que serpenteiam entre as colinas da cidade, as ruínas do Carmo, o Castelo, sobranceiro, e a Baixa pombalina, indiferente aos que a olham, lá do alto.
O que pode estragar este cenário idílico? A brilhante ideia de instalar num miradouro exíguo um café e uma esplanada, com várias mesas e cadeiras, empilhando os turistas e empurrando os que chegam para uma sucessão de atropelões, “com-licenças”, “excuse me”, “perdón!”. Não basta? Junte-se então uma banda brasileira, cantando clássicos do Nordeste ao som do violão. Tudo devidamente projectado em colunas potentes. A vista desafogada dá lugar a uma luta pela sobrevivência, pois só penso em agarrar-me com firmeza ao corrimão. Os empregados, que circulam como se nada fosse, abalroam um casal de idosos alemães. Mas o espectáculo prossegue, indiferente. Na confusão, alguém me fala. Pedem-me qualquer coisa. Ajuda, será? Pena eu estar surdo e em pânico.
Definitivamente, Portugal tem uma visão muito peculiar sobre a preservação do seu património.
O que pode estragar este cenário idílico? A brilhante ideia de instalar num miradouro exíguo um café e uma esplanada, com várias mesas e cadeiras, empilhando os turistas e empurrando os que chegam para uma sucessão de atropelões, “com-licenças”, “excuse me”, “perdón!”. Não basta? Junte-se então uma banda brasileira, cantando clássicos do Nordeste ao som do violão. Tudo devidamente projectado em colunas potentes. A vista desafogada dá lugar a uma luta pela sobrevivência, pois só penso em agarrar-me com firmeza ao corrimão. Os empregados, que circulam como se nada fosse, abalroam um casal de idosos alemães. Mas o espectáculo prossegue, indiferente. Na confusão, alguém me fala. Pedem-me qualquer coisa. Ajuda, será? Pena eu estar surdo e em pânico.
Definitivamente, Portugal tem uma visão muito peculiar sobre a preservação do seu património.
Etiquetas: identidade portuguesa, Lisboa

